Por Will Dunham
5 Nov (Reuters) - Um túmulo siberiano da antiga cultura cita, datado de 2.800 anos atrás, revelou a evidência mais antiga conhecida do uso da cannabis por seus efeitos psicoativos, com cientistas encontrando sementes da planta entre os objetos funerários e cabelos humanos que apresentavam suas marcas químicas dentro do túmulo.
Pesquisadores afirmaram que as evidências foram desenterradas em uma estrutura funerária monumental, com cerca de 140 metros de diâmetro, localizada no Vale de Uyuk, na remota República de Tuva, na Rússia. O túmulo, no sul da Sibéria, era o local de descanso final de membros de alto escalão da sociedade cita, conhecida por sua expertise em guerra a cavalo e ourivesaria, além de seu estilo de vida relativamente nômade nas estepes da Eurásia.
A cannabis é uma planta versátil que vem sendo utilizada e domesticada há milhares de anos, não apenas para fins psicoativos -- para “ficar chapado” --, mas também pela produção de fibras e sementes oleaginosas. É uma das substâncias intoxicantes mais consumidas atualmente. No entanto, compreender a história de seu uso psicoativo tem sido difícil devido à natureza perecível dos restos da planta.
“Há muita especulação sobre o uso de drogas psicoativas no passado, mas muito raramente encontramos evidências concretas e podemos realmente confirmar que uma planta foi consumida para esse fim”, disse o arqueólogo Gino Caspari, da Universidade de Berna, na Suíça, e do Instituto Max Planck de Geoantropologia, na Alemanha, que liderou o estudo publicado na revista Science.
“A razão para isso é que matéria vegetal e tecido mole humano raramente sobrevivem, e ainda mais raro é que sejam preservados no mesmo contexto. Nosso estudo mostra a evidência direta mais antiga do consumo psicoativo de cannabis”, disse Caspari.
Essa conclusão é reforçada pelo fato de que a descoberta foi feita em um sítio funerário e está associada a elaborados rituais de sepultamento. O local antecede as evidências mais antigas até então conhecidas, datadas do primeiro milênio a.C., de uso da cannabis para alterar a consciência, como vestígios de instrumentos usados para queimá-la encontrados no Oriente Médio e nas montanhas Pamir, na Ásia Central.
Os pesquisadores recuperaram mais de 1.400 sementes de cannabis associadas a sepultamentos dentro do túmulo siberiano e utilizaram uma técnica científica de datação para determinar que são do início do século 8 a.C.
“Objetos de valor no mundo dos vivos costumavam ser incluídos no contexto funerário como oferendas nesta região”, disse Caspari.
EVIDÊNCIAS NAS TRANÇAS
A análise química das tranças de cabelo dos corpos de diversas pessoas encontradas na câmara funerária central identificou assinaturas químicas consistentes com o THC, composto psicoativo da cannabis, e traços de canabinol, um composto relacionado ao THC.
“O corpo humano realmente produz moléculas relacionadas à cannabis, como o THC e o CBD, no cabelo. É assim que funcionam os testes de drogas”, disse Caspari. “Não podemos afirmar com certeza como eles consumiam a substância com base apenas no cabelo, mas, considerando evidências posteriores na região, parece provável que ela fosse inalada.”
O monte funerário foi construído com troncos de lariço e argila, e todo o conjunto está envolto por milhares de toneladas de pedras. Os pesquisadores recuperaram, no interior, itens trabalhados em um estilo artístico chamado “estilo animal cita”, assim como vários objetos incomuns de ouro.
Na superfície do monte funerário, os citas aparentemente realizavam sacrifícios de animais envolvendo dezenas de cavalos e, provavelmente, também de pessoas, disse Caspari, considerando os ossos humanos dispersos encontrados entre os vestígios.
"Encontrar cannabis em uma grande sepultura já indica que ela deve ser interpretada em um contexto ritual. Constatamos que tanto sacrifícios de animais quanto de seres humanos podem ter sido dispostos na superfície do monte na forma de uma espécie de cavalgada espectral. Sustentados por estacas, os cavalos e cavaleiros mortos formariam uma demonstração de poder social extremo dentro das comunidades das estepes", disse Caspari.
Os citas entraram em contato com ricas culturas de sua época, incluindo a Grécia antiga, conforme documentado pelo historiador Heródoto, do século 5 a.C.
“Heródoto descreveu o ritual da cavalgada espectral, mas sempre tivemos certa hesitação em acreditar em seus escritos, já que ele tende a se perder no fantástico. Depois de encontrar os restos mortais no sul da Sibéria, sabemos que pelo menos algumas de suas descrições sobre os povos das estepes continham alguma verdade”, disse Caspari.
As sementes descobertas no local estavam em bom estado de conservação.
“É aqui que a coisa fica ainda mais empolgante. Começamos a sequenciar algumas das sementes e encontramos DNA muito bem preservado”, disse Caspari. “Isso é ainda mais raro do que encontrar os próprios restos de plantas, e atualmente é o DNA de cannabis mais antigo conhecido. Acho que, nos próximos anos, seremos capazes de acrescentar detalhes e reescrever parcialmente a história da domesticação dessa importante cultura.”
(Reportagem de Will Dunham, em Washington)
Aviso