Por Will Dunham
9 Abr (Reuters) - Durante duas décadas, pesquisadores observaram membros do grupo de chimpanzés Ngogo, do Parque Nacional de Kibale, em Uganda, passarem seus dias comendo frutas e folhas, descansando, se deslocando e se limpando mutuamente em sua morada, na floresta tropical. Mas essa comunidade estável acabou se fragmentando e mergulhou em anos de violência mortal.
Pesquisadores agora estão registrando o primeiro exemplo claramente documentado de um grupo de chimpanzés selvagens que se dividiu em duas facções separadas, com uma delas lançando uma série de ataques coordenados contra a outra. Os alvos foram machos adultos e bebês, com 28 mortes.
"Mordendo, batendo na vítima com as mãos, arrastando-a, chutando-a -- a maioria dos machos adultos, mas às vezes as fêmeas adultas participam dos ataques", disse o primatologista Aaron Sandel, da Universidade do Texas, principal autor do estudo publicado nesta quinta-feira na revista Science.
Os pesquisadores começaram a estudar os chimpanzés de Ngogo em 1995. Esse era o maior grupo conhecido de chimpanzés selvagens, atingindo um pico de cerca de 200 membros. Em geral, os grupos de chimpanzés têm cerca de 50 membros.
Os cientistas sabem há tempos que os chimpanzés atacam e matam membros de grupos de chimpanzés vizinhos -- essencialmente estranhos -- mas esse caso foi diferente.
"É difícil para mim entender o fato de que o amigo de ontem se tornou o inimigo de hoje. Os machos dos dois grupos cresceram um com o outro, conheceram-se a vida inteira e cooperaram e colaboraram entre si, beneficiando-se no processo", disse o primatologista e autor sênior do estudo John Mitani, professor emérito da Universidade de Michigan.
"Então, por que se separaram? Talvez eles tenham se tornado vítimas de seu próprio sucesso quando o grupo cresceu a um tamanho intoleravelmente grande", disse Mitani.
Segundo os pesquisadores, uma combinação de fatores pode ter desestabilizado o grupo. Seu tamanho originalmente grande pode ter intensificado a competição por alimentos para todos e a competição entre os machos para acasalar com as fêmeas. A morte de sete chimpanzés em 2014, em meio a sinais de doença, pode ter perturbado as relações sociais, criando hostilidades.
As comunidades de chimpanzés são dominadas por machos. Houve uma mudança no macho alfa -- o chimpanzé de mais alto nível do grupo -- na época em que as tensões começaram, em 2015, com um chimpanzé chamado Jackson depondo outro macho.
Antes da divisão, o grupo era uma comunidade coesa, embora existissem grupos sociais. Membros de dois grupos começaram a se evitar em 2015. Depois, em 2017, meses após uma doença matar 25 chimpanzés, a maioria bebês, membros de um dos grupos atacaram Jackson, mas ele sobreviveu. No final de 2017, dois grupos distintos haviam se formado, denominados grupos Ocidental e Central.
A violência subsequente foi perpetrada pelo grupo Ocidental contra o grupo Central, começando em 2018.
O estudo publicado incluiu observações até 2024, com sete machos adultos e 17 bebês mortos, em um total de 24. E a violência continuou. No ano passado e neste ano, um macho adulto, um macho adolescente e dois bebês foram mortos, elevando o número de mortos para 28. Muitos chimpanzés desapareceram sem uma causa clara, o que sugere outros assassinatos não registrados.
"Eles simplesmente batem e pulam na vítima sem parar. Já presenciei casos que duram menos de 15 minutos. Há algumas mordidas e, se você examinar os corpos das vítimas, verá cortes. Mas nada que pareça causar uma fatalidade. Em vez disso, sempre achei que as vítimas adultas morriam devido a lesões internas", disse Mitani.
"Por outro lado, um único chimpanzé adulto pode arrancar um bebê da mãe e matá-lo rapidamente com algumas mordidas ou por meio de traumas contundentes. Esse último pode incluir bater o bebê no chão", disse Mitani.
O grupo Ocidental começou menor em tamanho e território, mas acabou ultrapassando o grupo Central em ambos. Aparentemente, o grupo Ocidental não sofreu baixas.
Embora os cientistas prefiram não chamar esses eventos de guerra civil, um termo com significado específico em conflitos humanos, eles viram semelhanças importantes.
Pesquisadores já haviam observado um exemplo anterior de uma comunidade de chimpanzés que aparentemente se dividiu, com agressão letal de uma facção contra a outra, na Tanzânia, na década de 1970. Nesse caso, os pesquisadores alimentaram regularmente os chimpanzés, alterando o comportamento natural, e os observaram apenas no local de alimentação, deixando muitas perguntas sem resposta.
Os chimpanzés e seus primos próximos, os bonobos, são nossos parentes evolutivos mais próximos. Os pesquisadores, no entanto, advertiram contra a possibilidade de estabelecer paralelos entre a violência dos chimpanzés e o comportamento humano.
"Somos semelhantes em alguns aspectos, devido à nossa história evolutiva compartilhada, mas também somos fundamentalmente diferentes porque mudamos nos últimos 6 a 8 milhões de anos, após nos separarmos deles", disse Mitani.
(Reportagem de Will Dunham em Washington)



