RIO - A violoncelista Kely Pinheiro, de 20 anos, nasceu e foi criada na favela da Grota do Surucucu, em São Francisco, Niterói. Quando tinha cinco anos, a mãe, que trabalhava como doméstica, decidiu inscrevê-la nas aulas de música de um projeto social da comunidade, a Orquestra de Cordas da Grota. Ali, Kely encontrou sua vocação: tocou flauta, piano, violão e, aos doze anos, descobriu o violoncelo, instrumento que a acompanha até hoje. Agora, ela espera se aperfeiçoar em um curso de quatro anos na Berkelee College of Music, em Boston. Kely ganhou uma bolsa de estudos para a renomada escola americana, mas corre o risco de não embarcar porque não tem como arcar com o custo da passagem nem com as despesas com moradia e alimentação.
Acostumada a não se conformar com falta de dinheiro, Kely, que atualmente estuda música na UniRio, decidiu pedir ajuda: criou um crowdfunding para tentar arrecadar cerca de R$ 70 mil, quantia que vai permitir que ela sobreviva nos Estados Unidos por um ano. Até sexta-feira, o financiamento on-line (KELY vai pra BERKLEE!) havia arrecadado R$ 37.395, doados por 210 pessoas. Como as aulas começam dia 29 de agosto, ela corre contra o tempo para conseguir juntar a quantia.
— Não vou abrir mão do meu sonho. Participei de um processo seletivo difícil, com audições e testes, e, quando recebi a notícia da bolsa, comemorei. Só que tenho que arranjar um jeito de conseguir fundos para cobrir a alimentação, moradia e os outros gastos. Vou precisa de R$ 100 mil para o primeiro ano, mas já consegui R$ 30 mil com doações. Depois vejo como conseguir o restante — diz ela, que, aos 15 anos, formou-se na Academia Juvenil da Orquestra Petrobras Sinfônica e atualmente toca na Camerata Laranjeiras e na Orquestra Sinfônica Cesgranrio.
Na página da vaquinha on-line, Kely faz um apelo. “Você é brasileiro como eu e sabe o quanto nosso país desperdiça seus talentos. Por isso, te convido a se alegrar com a minha conquista como se fosse nossa. Se você compartilhar do meu sonho, poderemos investir juntos na propagação da cultura brasileira. Com o seu apoio, eu posso SIM chegar a tão almejada Berklee, na terra do Tio Sam.”, escreveu.
Mas Kelly não está contando apenas com a boa vontade alheia. Ela vem fazendo shows para arrecadar dinheiro. Semana passada, ficou alguns dias em São Paulo, onde se apresentou com grandes nomes da música, como o maestro João Carlos Martins e o pianista Marcelo Bratke, no Teatro Municipal. Ela ainda não fez a contabilidade da venda dos ingressos, mas estima que juntou de R$ 3 mil.
—Fui até São Paulo porque muita gente que fez doação é de lá, achei que deveria retribuir — explica.
No dia 25, ela terá uma nova chance de aumentar a poupança: vai tocar num show beneficente no Teatro Municipal de Niterói, com ingresso a partir de R$ 30.

