RIO - Diz o ditado que água mole em pedra dura tanto bate até que fura. No Rio, a água sempre bateu com força, mas jamais rompeu a barreira da inépcia do poder público que impede a cidade de se livrar dos alagamentos, entre outros problemas. Uma pesquisa ainda inédita da Universidade Federal da UFRJ analisou as tempestades que castigaram o município desde o fim do século XIX e apontou que não houve um ano sequer sem desastres como inundações e deslizamentos.
A pesquisa investigou temporais entre 1881 e 1996. Foram analisadas chuvas acima de 100 milímetros que causaram distúrbios. O estudo comprova que chuvas fortes são um fenômeno natural na cidade. Já as enchentes, de acordo com especialistas da UFRJ, são um fenômeno social: estão relacionadas à falta de capacidade do Rio para enfrentar mudanças de tempo.
— As chuvas fortes mostraram muitas vezes aos cariocas que podem chegar a qualquer hora — afirma a coordenadora do estudo, Claudine Dereczynski, professora de meteorologia da UFRJ e especialista no clima da cidade.
Claudine explica que 40% dos casos de chuvas extremas que provocam distúrbios acontecem no verão; e outros 40%, no outono. Inverno e primavera respondem, cada um, por 10% dessas ocorrências.
— Sempre ocorrem eventos extremos de chuva no Rio. A média é de 1,3 por ano. Mesmo em junho, podem acontecer. Foi assim, por exemplo, em 17 de junho de 1916, quando uma estação pluviométrica na Praça Quinze marcou 205,7 milímetros de precipitação — diz a pesquisadora.
O estudo lança luz sobre um período nebuloso da história das chuvas no Rio, anterior à criação dos serviços modernos de meteoreologia. Em 1996, foi criado o Alerta Rio, e o Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Inpe (CPTEC) passou a disponibilizar seus prognósticos na internet. Os especialistas da UFRJ combinaram análises de séries históricas com relatos de jornais de várias épocas.
— Chega a ser chocante ver que, fora as variações do vocabulário ao longo dos anos, os motivos e as justificativas continuam os mesmos. Perdi a conta da quantidade de fotos de jornais que mostram a Rua Jardim Botânico transformada em um rio, com pessoas agarradas às grades para se salvar. É algo que vemos até hoje — lamenta Claudine.
Em um editorial publicado no dia 13 de maio de 1897, o jornal “O Paiz” protestava, com a grafia da época, contra a falta de ações do poder público para evitar as consequências de um temporal que alagara o Rio: “De quem é a responsabilidade? Ninguém poderá dizer, porque a anarchia dos serviços administrativos não deixa vaga ao exame e ao apuro de responsabilidade: a directoria de obras já nos diz em carta que nada tem com o peixe, porque o serviço de esgotos pluviais não corre a conta da Municipalidade, mas, sim, da Inspetoria de Obras Publicas, que é repartição federal. Esta, por sua vez, terá desculpas e justificativas a apresentar, e, estabelecido o jogo de empurra, triunfará a desídia tolerável nesta e em outras emergências, com que a moralidade da administração publica determinava, em outro paiz, severas e imediatas punições”.
O “mau humor” do tempo também é atacado há muitos anos. Edison Passos, então secretário de Viação do antigo Distrito Federal, falou com o “Jornal do Brasil” sobre a chuva que castigou o Rio em 10 de fevereiro de 1938: “Coloquei em conexão as turmas da Diretoria de Engenharia com as da Limpeza Pública e estamos atendendo ao público com todos os recursos de que dispomos, com a maior solicitação e empenho. (...) As obras que são realizadas em uma cidade — e todos os técnicos sabem disso — não são e não podem ser projetadas prevendo os casos de excepção, como o de hontem.”
Claudine Dereczynski diz que os tempos mudam, mas as atitudes, não:
— O Rio tem um clima instável, desastres fazem parte da nossa história. O problema é quando vamos aprender a nos preparar.




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