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Secretaria de Segurança recebe denúncia e manda investigar ação da PM na Cidade Alta

RIO - Menos de uma semana depois da guerra entre traficantes pelo controle da Cidade Alta, em Cordovil — que resultou na prisão de 40 criminosos e apreensão de 32 fuzis —, a ação policial na ocasião está em xeque. Apesar de as autoridades de segurança terem destacado o “êxito” da operação, a Polícia Militar publicou, em seu boletim interno na última sexta-feira, a transferência de nove PMs do 16º BPM (Olaria), cada um para uma unidade diferente, o que a corporação justificou apenas como medida administrativa. Ontem, a Secretaria de Segurança teve que dar novas explicações, desta vez sobre um áudio, acompanhado de uma denúncia anônima, replicada em redes sociais, informando que um grupo de policiais teria recebido R$ 1 milhão para transportar de volta à comunidade, dentro do caveirão (veículo blindado), traficantes do Terceiro Comando Puro. Eles controlam o tráfico ali desde o ano passado e estavam sendo atacados pela quadrilha do Comando Vermelho.

O comunicado da Secretaria de Segurança diz que o titular da pasta, Roberto Sá, “tão logo tomou ciência do áudio”, solicitou ao comandante-geral da corporação, coronel Wolney Dias, que a Corregedoria da PM instaurasse procedimento investigativo sobre o caso. Também por nota, a PM voltou a assegurar que a transferência de policiais da região para outros batalhões não teve qualquer relação com eventuais desvios de conduta. Segundo uma fonte da área de segurança, está sendo apurada a autenticidade do áudio e a data em que foi gravado.

Ao GLOBO, o porta-voz da PM, major Ivan Blaz, afirmou que a mensagem não indica a presença de traficantes ao lado de policiais:

— O áudio só mostra diálogos de uma tropa no interior de um veículo blindado. De qualquer forma, a Secretaria de Segurança determinou a abertura de procedimento apuratório — disse o porta-voz da PM.

No áudio, não fica claro de quem são as vozes gravadas. Aparentemente, um homem orienta policiais, dentro do caveirão, a chegarem aos locais da Cidade Alta onde estão traficantes. Também não é possível precisar se o fato ocorreu no dia 2 deste mês, quando houve a invasão da facção criminosa. Mas tudo indica que foi gravado no local porque são feitas referências à Escola Municipal Ministro Lafayette de Andrada, que fica no meio do conjunto habitacional, entre as ruas Serra do Navio e Wilsom dos Santos. Também há uma referência à Rua Ponto Chique, outra via de lá. É possível ouvir intenso tiroteio ao fundo em vários momentos da gravação, que tem duração de 12 minutos. Dois nomes são citados: Félix, que parece ser a pessoa que dirige o veículo, e outro homem identificado como Barbosa. Na lista dos nove transferidos do 16º BPM, não há policiais com esses nomes ou sobrenomes.

MATERIAL APREENDDO

Outros detalhes da operação também chamam atenção. Dos 32 fuzis apreendidos pela polícia, todos pertenciam ao Comando Vermelho, facção criminosa que tentou invadir a Cidade Alta. Entre o material apreendido, havia armas com a inscrição “CX”, que indicaria se tratar de armamento reserva da quadrilha, só utilizado em casos de ataques a inimigos, sem prejuízo do funcionamento das bocas de fumo.

De acordo com informações da própria polícia, todos os criminosos detidos — levados para a 22ª DP (Penha) e a 38ª DP (Irajá) — também são do Comando Vermelho. Durante a invasão à Cidade Alta, eles teriam contado com a ajuda de bandidos de pelo menos quatro favelas, entre elas, a Vila Cruzeiro. Onze dos 40 criminosos presos foram encontrados na casa de uma moradora grávida, feita refém pelos traficantes em fuga. Além dos detidos, dois homens foram baleados nos confrontos com a tropa de elite e outros dois, mortos: os quatro também são da mesma facção.

Após a operação, o entorno da comunidade viveu um dia de caos. Ao todo, nove ônibus e dois caminhões foram incendiados. Depois que bombeiros controlaram o fogo, pessoas saquearam os veículos. A Avenida Brasil e a Rodovia Washington Luís sofreram interdições que deixaram a cidade durante quase nove horas em estágio de atenção.

Para a cientista social Silvia Ramos, coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec), da Universidade Candido Mendes, não se pode dizer, por enquanto, se houve episódio de corrupção na operação da Cidade Alta, mas é importante que a Secretaria de Segurança investigue denúncias como essa:

— As denúncias de corrupção da polícia são muito frequentes no Rio, dando a impressão de que estão espraiadas nas práticas cotidianas das favelas. E, dada a quantidade de denúncias, há pouquíssimas investigações. Moradores de favela diariamente, nas redes, denunciam que a polícia está recebendo “arrego” (dinheiro vindo do tráfico de drogas). Isso é tão frequente e presente no dia a dia da cidade, e são tão poucas as vezes em que a PM se manifesta que, nesse caso emblemático, é muito importante haver uma apuração. Tem a ver com a legitimidade da polícia.

INVESTIGAÇÃO

Silvia também ressalta que a PM historicamente tem fama de corporação corrupta:

— Há décadas a PM do Rio é conhecida como uma polícia muito violenta e corrupta. Essa é a ponta de um iceberg; há muitas práticas cotidianas de violência e corrupção.

Ignacio Cano, coordenador do Laboratório de Análise da Violência da Uerj, faz coro ao defender a apuração do episódio:

— A atuação de grupos criminosos com a polícia é recorrente e ficou mais estreita com as milícias. A suspeita não é surpresa. A atenção a esse problema é essencial — observa.

No último sábado, O GLOBO mostrou que investigações sobre policiais têm chegado em maior número à Promotoria de Justiça junto à Auditoria de Justiça Militar nos últimos anos. No ano passado, foram 4.102 casos, contra 3.258 encaminhados em 2013 — praticamente todos referentes a policiais militares. Em 2016, 60 denúncias de corrupção envolvendo PMs foram oferecidas à Justiça.

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