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Rio fica refém de guerra de facções

RIO - Uma família, na Cidade Alta, amanheceu sob a mira de traficantes armados com fuzis. Com a mulher grávida e a filha de 12 anos como reféns, o pai abriu a porta para a polícia que cercava o imóvel.

— Pelo amor de Deus, tem onze bandidos no segundo andar — disse e, ato contínuo, viu a mulher e a criança desceram, apavoradas, a escada.

A cena parece de filme, mas aconteceu às 9h de ontem. Era o início do fim de uma série de ataques que fez todo o Rio refém. Os traficantes se entregaram. A contabilidade da crônica policial, no fim da terça-feira pós-feriado, era impressionante: 45 bandidos presos, dois mortos, e 36 armas apreendidas — dessas, 32 eram fuzis.

O capítulo de ontem da guerra cotidiana do Rio poderia ser “a invasão”. O inferno começou porque bandidos da favela de Parada de Lucas, do Comando Vermelho, deram início, ainda de madrugada, a um plano já conhecido de moradores e até do serviço de inteligência da polícia: tomar a Cidade Alta, a apenas dois quilômetros, dominada pela facção Terceiro Comando Puro. A área, na Zona Norte, é considerada estratégica para o tráfico, perto de vias importantes de acesso à cidade, como a Avenida Brasil, e da Baía de Guanabara, por onde chegam carregamentos de drogas e armamento. Não se sabe o tamanho do bando que partiu para a empreitada, mas, de acordo com a própria polícia, traficantes aliados da mesma facção do Borel e do Alemão cederam homens e armas.

Na Cidade Alta, assim que o bando invasor entrou, por volta das 23h de segunda, começou um intenso tiroteio que levou desespero aos moradores por cerca de dez horas. Muitos não saíram para trabalhar, e quase 5 mil crianças não foram à escola. O confronto, que já era intenso, cresceu com a chegada de policiais militares do 16º BPM (Olaria). Ao se depararem com a gravidade da situação, eles pediram auxílio a outras unidades e aos batalhões de Choque e de Operações Especiais (Bope).

Logo, o tráfico ordenou novos ataques para tumultuar a ação policial na tentativa de facilitar a fuga de bandidos encurralados na Cidade Alta. Parada de Lucas, a esta altura, também estava cercada. Nove ônibus e dois caminhões foram incendiados, na Avenida Brasil e na Rodovia Washington Luís. Bandos agiam simultaneamente. Eles paravam o trânsito, obrigavam motoristas e passageiros a descerem, jogavam gasolina e ateavam fogo aos veículos. Às 10h50m, o centro de operações da prefeitura decretou estado de atenção devido ao caos no trânsito — foram 66Km de engarrafamentos —, e a situação só voltou ao normal às 20h.

`À tarde, sobre os escombros da guerra, começaram saques. Moradores roubaram a carga de um dos caminhões incendiados, na Avenida Brasil, diante de PMs que apenas olhavam. Um carro ainda passou fazendo disparos para o alto.

Só às 16h, o secretário de Segurança, Roberto Sá, falou. Garantiu que o serviço de inteligência da polícia não falhou, mas não tinha informações suficientes. Elogiou o trabalho da polícia:

— Evitamos um banho de sangue.

Em entrevista coletiva, Sá disse que o estado não tem recursos para convocar 4 mil PMs aprovados em concurso e pagar horas extras para a tropa, Regime Adicional de Serviço (RAS).

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