RIO - Ermenegilda Dias Moreira desfila desde os 5 anos na Mangueira. Começou como baianinha lá no tempo da inocência, quando as agremiações que cruzavam a Presidente Vargas passavam longe das superescolas de samba S.A. da Sapucaí. Desde 1988, ela é presidente da Velha Guarda da verde e rosa. Aos 78 anos, quase dá bronca em quem não se refere a ela como Dona Gilda. A mesma bronca com que defende a importância de sua ala, peça de resistência da tradição e da memória do carnaval carioca. Dona Gilda tem seus motivos. A julgar pela cadência atual do samba, a Velha Guarda é uma instituição que, a despeito da idade avançada de seus componentes, vem minguando. Integrantes relatam a dificuldade de renovação, em alguns casos por conta dos estatutos das próprias escolas. A ponto de pesquisadores do tema proporem uma reflexão sobre o modelo do desfile e até a criação de um prêmio para valorizar os mais antigos.
Filha de Júlio Dias Moreira, presidente da Mangueira entre 1935 e 1937 — o segundo da história da escola fundada em 1928 —, Dona Gilda é a responsável pela mais antiga Velha Guarda do Rio. No último domingo, a verde e rosa abriu suas portas para um evento que reuniu integrantes de outras 50 agremiações para celebrar o Dia Estadual da Velha Guarda, data criada em 1995 justamente para prestigiar os baluartes.
— Éramos cem pessoas há uns cinco anos. Hoje, somos 60. E, ainda assim, cinco integrantes não aguentam mais desfilar. Na Mangueira (para entrar para a Velha Guarda), é preciso ter 60 anos de idade e pelo menos 30 como sócio. Mas a gente já está aceitando pessoas que não são sócias por conta da dificuldade de renovação — conta Dona Gilda.
Na Portela, a Velha Guarda comemora 50 anos no dia 15 de novembro. Por lá, 106 pessoas estão cadastradas, mas só 80 componentes são atuantes, pelas contas do vice-presidente da ala, Aimore Azevedo. Um deles era Casquinha, nome artístico de Otto Henrique Trepte — autor de clássicos como “Recado”, em parceria com Paulinho da Viola —, que morreu na última quarta-feira.
A escola de Madureira tem uma especificidade: a efervescência de seus compositores fez surgir, em 1970, um grupo musical dentro da tradicional ala, a Velha Guarda Show, da qual fazem parte, por exemplo, Monarco e Tia Surica. A percepção de que a ala não vem se renovando também ronda a Portela. No ano passado, apenas 15 integrantes da Velha Guarda vieram em carros alegóricos, sem contar os que desfilaram no chão. Para o carnaval de 2019, o desejo é que esse número aumente.
— Chegamos a ter uma certa dificuldade. Saímos com 60, número aquém do desejado, que gira em torno de 80 componentes na pista. Por conta da idade avançada, da dificuldade de locomoção e do grande tempo de espera na concentração, a Velha Guarda começou a ter oferta de vagas em carros alegóricos, e a gente seleciona as pessoas menos capacitadas fisicamente para esses postos. Para o próximo carnaval, estamos solicitando uma ampliação no número de pessoas em alegorias — ressalta Azevedo.
No Salgueiro, o número de componentes se mantém estável — 110 inscritos. A agremiação tijucana, no entanto, se antecipou ao problema e reduziu a idade mínima para se inscrever na ala de 60 para 55 anos.
— Nosso lugar no desfile varia de acordo com o carnavalesco. No ano passado, viemos no meio da escola. No próximo, vamos para a ala 24 ou 25, lá no final, um setor muito ruim. É mais um sacrifício para o sambista antigo. Acho a Velha Guarda pouco valorizada. Só quem gosta mesmo do samba e da escola fica. Deveria ter pelo menos um prêmio de consolação que nos incentive. A gente está vivo ainda — reclama Maria Aliano, a Caboclinha, presidente da ala no Salgueiro.
Para o coordenador do Centro de Referência do Carnaval da Uerj e jurado do prêmio Estandarte de Ouro, do GLOBO, Felipe Ferreira, a questão passa menos por desvalorização dos integrantes e mais pelo papel deles no atual modelo de desfile:
— A ideia de um espetáculo que precisa ter algo surpreendente o tempo todo, sem espontaneidade, não dá espaço para o que a gente entende como Velha Guarda. É mais um sintoma de que o atual formato se afasta do tradicional, que não está atraindo público e atenção. A Velha Guarda tem sofrido muito com isso.
Prêmio especial cogitado
Diretor social da associação que reúne as Velhas Guardas do Rio, Jorge Ferreira também critica algumas adaptações sofridas pela ala no carnaval atual. Entre elas, a posição no desfile. Para ele, os baluartes deveriam continuar abrindo a passagem de cada escola, posição ocupada nos áureos tempos. Em 2005, a Velha Guarda da Portela chegou a ser impedida de entrar na Sapucaí porque o tempo de desfile estava estourado e o grupo fecharia o enredo.
O pesquisador musical Ricardo Cravo Albim defende a criação de um prêmio pela Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) para valorizar a participação dos componentes nos desfiles:
— Só temos hoje a definição da Velha Guarda porque a atual gestão da Mangueira prestigia, o que em outros tempos não acontecia. E a Velha Guarda da Portela tem sempre o apoio de grandes nomes da MBP. Cadê a Velha Guarda do Salgueiro? A do Império titubeia, poderia ter um espaço melhor.
A ideia de Cravo Albim já tem até nome, Prêmio Mestre Cartola Para Melhor Velha Guarda em Desfile na Sapucaí, e justificativa:
— Cartola fundou a Velha Guarda da Mangueira lá nos anos 1960. E fez isso porque já se preocupava com a modernização dos desfiles.

