“Quando o tamborim de Casquinha emudece, é a memória de uma geração de sambistas que se vai. “E agora já não sou / O que passou, passou”, disse ele em “Recado”. O tempo de Casquinha passou, mas ele permanece como símbolo da era em que os bambas das escolas ditavam o batuque no país. O portelense era um dos remanescentes do disco produzido por Paulinho da Viola em 1970, “Portela, passado de glória” — o outro é Monarco, joia da cultura brasileira que ganha em primeiro turno qualquer eleição para presidente dos nossos corações, sem margem de erro!
O LP criou a Velha Guarda Show da Portela e incentivou o aparecimento de grupos nas outras escolas: a Portela atacava com Manacéa, Chico Santana e Alcides; o Salgueiro tinha Babão, Noel Rosa de Oliveira e Anescarzinho; o Império escalava Aluísio Machado, Mano Décio e Fuleiro; e a Mangueira vinha com Sargento, Cachaça e Hélio Turco. Eles se tornaram referências, uma espécie de Waze do bom gosto, um mapa da mina da qualidade musical, o ISO 9000 do que nos chega aos ouvidos.
Mas boa parte desses bambas já não está entre nós (a festa no quintal do céu tá grande, né, Wilson Moreira?), e a falta de renovação nas Velhas Guardas aflige quem deve sua formação à turma elegante do chapéu panamá. Mas a crise não é do samba, é das escolas. Os jovens estão aí, recriando o gênero, mantendo as tradições. Apenas não frequentam mais os terreiros das escolas de samba. As agremiações deixaram de ser lugar de reunião de compositores (acredite: quatro escolas do Grupo Especial não farão disputas de samba este ano). Elas se tornaram máquinas de desfiles, mirando os 700 metros da Sapucaí e deixando de lado os milhares de quilômetros que poderiam percorrer se funcionassem como grêmios recreativos, aglutinando sambistas o ano inteiro.
Se a renovação não veio para as Velhas Guardas, suas lições estão sendo colocadas em prática nas rodas, nos pagodes, nos blocos. Monarco ensinou que samba bom é “sem agrotóxico” – e a juventude está cuidando dessa plantação com respeito aos mestres. O terreno das escolas parece improdutivo, mas estão brotando nos outros cantos da cidade as safras que iremos colher nas próximas décadas.”
* Leo Bruno, jornalista

