RIO - O Rio já foi uma cidade em que os jardins ocupavam um espaço privilegiado na vida dos cariocas. Tanto que o Passeio Público, o primeiro a ser inaugurado, no século XVIII, transformou-se logo num ponto de encontro de intelectuais, músicos e poetas. Depois de dois séculos, com as mudanças urbanísticas, essas áreas perderam espaço para avenidas e prédios. Mas muitos resistem, como retratos de um passado menos frenético, em que o carioca podia se dar ao luxo da contemplação.
— Os jardins perderam muito de sua função original por causa das mudanças climáticas e, depois, dos shoppings. No passado, as pessoas iam ao Passeio Público por causa do clima, da comida (sempre havia alguém vendendo frutas ou alguma coisa gostosa), e da água das fontes. Hoje em dia, as pessoas vão para a praça do shopping — comenta o arquiteto Carlos Fernando de Moura Delphim, autor do Manual de Intervenções em Jardins Históricos. — O jardim é uma obra de arte das produções culturais mais antigas da nossa história, porque ele é uma forma de organizar a natureza.
Implantados na cidade entre os séculos XVIII e XX, cinco jardins históricos, quatro deles tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) — a exceção é a Praça Paris, protegida apenas por órgão do município —, localizam-se entre São Cristóvão e a Zona Sul. Roteiros para serem explorados a pé.
Na Quinta da Boa Vista, a bela alameda de sapucaias, que todos os anos tinge de rosa o lugar, onde há um palácio, inicialmente não fazia parte do projeto paisagístico do jardim. Dom Pedro II, que encomendou a remodelação ao paisagista Auguste François Marie Glaziou, não gostou do resultado.
— O imperador dizia que nenhum palácio real do mundo tinha uma aleia curva. Houve um desentendimento, e a imperatriz interveio. Glaziou mudou o projeto e fez uma das sete maravilhas da jardinagem do Brasil, uma alameda de sapucaias, planta nativa da Mata Atlântica — conta arquiteto Carlos Fernando de Moura Delphim.
Já o Passeio, construído entre 1779 e 1783, foi o primeiro parque público do país. Projetado por Valentim da Fonseca e Silva, o Mestre Valentim, por determinação do vice-rei do Estado do Brasil, Luís de Vasconcellos, seu desenho tinha estilo francês, com linhas retas, muros e grades de ferro. Mas, em 1861, a área verde foi alterada por Glaziou, que adotou o modelo inglês, com caminhos mais sinuosos. Ganhou dois lagos — um deles, aterrado —, plantas nativas, como oitizeiros, figueiras e palmeiras-imperiais — e estátuas representando as quatro estações da Fundição Val d'Osne, na França.
— O jardim surgiu de um sonho. Havia uma donzela, Susana, que vivia numa casa próxima à Lagoa do Boqueirão e foi amada por Luís de Vasconcellos. Mestre Valentim também teria ficado encantado por ela. Um dia, a mulher contou aos dois que havia sonhado com um gênio que tirava uma túnica dos ombros e a estendia sobre uma lagoa de águas podres, que virava um lindo jardim — diz o arquiteto.
Maior área verde do Centro do Rio (são 155 mil metros quadrados), o Campo de Santana surgiu de uma ordem de Dom João, que, em 1880, quis criar ali um jardim e convidou Glaziou. Foi ele quem o transformou no “pulmão da capital do Império”, cenário da aclamação de D. Pedro I e da Proclamação da República. Ainda foi palco de festas e de protestos como a Revolta da Vacina. E até de touradas. Protegido em 1938 pelo Iphan, o parque acabou destombado cinco anos depois por decreto presidencial, permitindo que cerca de 20% de sua área fossem eliminados para a abertura da Avenida Presidente Vargas. A gruta, as esculturas e diversas espécies ainda permanecem na área tombada pelo estado nos anos de 1960.
Além dessas preciosidades, há a Praça Paris e os jardins do Palácio do Catete (atual Museu da República), na época Palácio Nova Friburgo, construído entre 1858 e 1867. A Praça Paris foi erguida sobre um aterro com material do desmonte do Morro do Castelo e projeto do francês Alfred Agache. Foi aberta em 1926 com 57 mil metros quadrados, aleias geométricas e cercada por amendoeiras. Os monumentos às estações são réplicas dos vistos no Palácio de Versalhes.
— Ela é uma referência ao período em que o Rio se vestiu de francês — diz o professor João Baptista Ferreira de Mello, do Roteiros Geográficos do Rio.
No Museu da República, as palmeiras plantadas resistem até hoje. Planejado por Glaziou, o jardim foi remodelado por um dos seus discípulos, Paul Villon, quando o lugar foi para as mãos do governo federal. Data desta época a construção de uma gruta, de um rio artificial e de pontes. Havia um cais de uso exclusivo do presidente. Nos anos de 1960, com o Aterro do Flamengo, o que restava do píer foi demolido.



