RIO - As notas escolares sempre foram importantes para o estudante João Vitor Antonio, de 15 anos, morador de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Mas, há três anos, as notas musicais ganharam a mesma relevância na vida do adolescente, que está no 2º ano do ensino médio e quer ingressar na Marinha. Incentivado por um tio maestro a tocar trombone, ele fez aulas e, em setembro, entrou para a Orquestra Sinfônica Juvenil Carioca, um braço do projeto Orquestra nas Escolas, da Secretaria municipal de Educação. João e outros 279 jovens de escolas públicas tocam instrumentos de corda, sopro e percussão no grupo.
— Onde eu moro tem meninos que largaram os estudos e acabaram se envolvendo com drogas e com pessoas erradas. A música dá uma perspectiva de vida para a gente — observa João, que sonha ser músico militar.
Outro sonho do menino — tocar na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca — foi realizado no fim de novembro, quando a orquestra fez seu primeiro recital. No repertório, músicas como “O trenzinho do caipira”, de Heitor Villa-Lobos com letra de Ferreira Gullar, e “Samba de uma nota só”, de Tom Jobim, além de peças de Bach, Rossini e Tchaikovsky.
— Quando eu era menor, sempre que passava lá em frente, desejava entrar. Mas nunca imaginei estar um dia ali dentro. Tocar na Cidade das Artes mexeu bastante comigo — diz João.
Quem também se emocionou com a apresentação foi Luan Isais Barros, de 13 anos, aluno do 8º ano e clarinetista. Morador do Irajá, ele conta que ficou feliz por dividir o palco com outros mil jovens músicos — além dos membros da Orquestra Sinfônica Juvenil Carioca estavam presentes alunos de 53 instituições de ensino municipais, todas participantes do projeto Orquestra nas Escolas.
— A música é pouco valorizada no Brasil. Com um projeto como esse, você se sente importante e reconhecido — destaca Luan.
Este mês, o grupo se apresentou no Teatro Net Rio, em Copacabana; nas escadarias da Câmara Municipal, no Centro; e no Parque Madureira. Cada membro da Orquestra Sinfônica Juvenil Carioca, que é regida pelo maestro Anderson Alves, egresso de uma escola pública, ganha auxílio de R$ 200 por mês. E recebe ainda um Riocard com crédito para ir aos ensaios: dois por semana, com duração de três horas cada. Luan faz questão de chegar até antes do horário:
— Gosto de me antecipar para ter tempo de afinar o instrumento, aquecer. Saio da escola ansioso, o ensaio é uma maravilha.
O programa Orquestra nas Escolas teve início em fevereiro deste ano e beneficia cerca de 9 mil alunos de instituições municipais, em bairros como Campo Grande, Ricardo de Albuquerque, Engenho de Dentro e Mangueira. A meta da Secretaria de Educação é formar 80 mil instrumentistas na rede de ensino até 2020 e fazer da música um meio de incentivo à paz e ao protagonismo desses jovens.
— Vivemos uma época de muita dificuldade, mas, ao mesmo tempo, de esperança. Desejamos promover a união e mostrar que cada peça é fundamental para a construção de uma sociedade harmônica. A música tem toda a capacidade de transformar realidades — afirma Moana Martins, coordenadora do programa Orquestra nas Escolas.



