RIO - Ah, o verão… Motivo de alegria para quem não dispensa os dias ensolarados à beira mar, a estação mais quente do ano tem sido fonte de tristeza para moradores e comerciantes da Praia da Macumba, onde, em outubro do ano passado, dois quiosques e um trecho de aproximadamente 300 metros do calçadão, da pista e da ciclovia foram destruídos pela ressaca. Três meses após a prefeitura iniciar obras emergenciais no local, com previsão de conclusão para o fim de fevereiro, o clima por lá ainda é o mesmo: cinzento, até em dias de céu azul.
— A gente ficou sem verão. Eu pegava onda todos os dias. Agora, está tudo vazio. Isso aqui ficava lotado. Fiquei frustrado e bastante preocupado com a desvalorização. Um apartamento que valia R$ 1 milhão agora custa R$ 500 mil. Ninguém quer vir para cá, não temos mais praia — lamenta o médico Carlos do Val, síndico do edifício Sobre as Ondas, na Estrada do Pontal, um dos mais afetados pelas ondas. — Cheguei a achar que perderia minha casa.
O canteiro de obras, por exemplo, está bloqueando o acesso à praia de moradores do Villaggio Acquafina, um condomínio com 83 apartamentos, na mesma via. Segundo o síndico, o contador Piero Carbone, dez inquilinos deixaram os imóveis que alugavam, e os proprietários ficaram no prejuízo:
— Os argumentos para quebra de contrato eram fortes. Algumas pessoas ficaram muito assustadas com a segurança. E não dá para ficar aqui sem acesso à praia.
Para entrar e sair de casa, Miriam Ferreira da Silva conta que está sendo obrigada a passar por uma ponte improvisada, dentro do canteiro de obras.
— Durante dois meses dependi da boa vontade de moradores do condomínio vizinho, que me deixavam atravessar o terreno até a Estrada do Pontal. Meu sonho é que essa obra fique pronta — diz Miriam, que vende quentinhas na região e viu seus clientes desaparecerem. — Entregava cerca de 50 por dia, agora são dez. As pessoas não vêm mais à praia aqui.
O sumiço dos banhistas é uma reclamação de todos os comerciantes da região. Celso da Costa, gerente do Camping Clube do Brasil, conta que, no ano passado, nesta época já havia 500 grupos hospedados. Este ano são apenas 120. Dono de um quiosque que ficou interditado de 15 de outubro a 22 de dezembro, Renato Moreira estima a queda no movimento em 90%, em relação ao verão de 2017:
— Os banhistas perderam o hábito de frequentar a Praia da Macumba. Está muito difícil pagar as contas. Tive que vender meu carro para sobreviver.
Apesar de as obras na região ainda estarem em andamento, a prefeitura liberou um trecho da Estrada do Pontal, antes mesmo da reconstrução do calçadão e da ciclovia. Segundo os moradores, ciclistas e pedestres têm divido a pista com veículos que, muitas vezes, passam em alta velocidade:
— Foi uma irresponsabilidade reabrir a pista sem a conclusão da obra. Não há quebra-molas, redutores de velocidade — disse a advogada Cristiane Fernandes, moradora do Sobre as Ondas, que critica o projeto da prefeitura de implantar bolsões de concreto e areia para reforçar os muros da costa, ao custo de R$ 14,5 milhões. — No ano que vem, uma nova ressaca vai levar a areia da praia mais uma vez. Queremos uma obra definitiva, baseada num projeto elaborado no ano 2000, por uma equipe da Coppe/UFRJ, e que não foi implantada na época por falta re recursos, segundo o então prefeito Cesar Maia.
Coordenado pelo professor Paulo Rosman, o projeto citado por Cristiane prevê, entre outras medidas, repor um estoque de 600 mil metros cúbicos de areia da praia, para ajudar a dissipar a força das ondas antes que elas cheguem à orla, além de obras no canal da Sernambetiba, que drena água da região de Vargem Grande.
— Ao longo dos últimos 50 anos, toda vez que o canal entupia, com a areia levada pelas ondas, ele era dragado. Mas a areia retirada, ao invés de ser devolvida à praia, era usada para outros fins. Isso provocou um estreitamento da faixa de areia da praia, aproximando ainda mais o mar da rua — explicou Rosman, especialista em engenharia costeira.
Segundo o professor, no fim do ano passado a prefeitura chamou ele e sua equipe para conversar sobre a atualização do projeto, estimado por alto em R$ 60 milhões:
— Em dezembro, entregamos uma proposta para o secretário municipal de Conservação e Meio Ambiente, Jorge Felippe Neto, além de uma minuta de atualização e complementação do projeto, no valor de R$ 300 mil. Ele se mostrou muito interessado, mas ainda não deu retorno.
Em outubro, o presidente Michel Temer assinou um contrato de R$ 652 milhões para obras de infraestrutura no Rio. O acordo, entre a Caixa Econômica e a prefeitura carioca, é para apoiar ações previstas no orçamento do município. Jorge Felippe Neto afirmou que trabalha para conseguir a verba que viabilizará o projeto definitivo de recuperação da Praia da Macumba:
— Esse projeto terá toda a nossa prioridade, mas ainda não temos prazo definido.
De acordo com a secretaria, nesta semana será apresentado um projeto para que, após a conclusão das obras emergenciais, seja iniciada a urbanização da área, restabelecendo a ciclovia e a vegetação de restinga.
Sobre a pista liberada na Estrada do Pontal, A CET-Rio informou que a circulação de ciclistas em via pública é permitida e motoristas devem obedecer as normas de trânsito, mantendo a distância de 1,5m durante a ultrapassagem. Segundo o órgão, está sendo implantada sinalização educativa e de advertência no local. De acordo com a Rioluz, um novo projeto de iluminação para a área está em fase de desenvolvimento.



