RIO - Era para ser um filme comemorativo.Mas virou um alerta. O documentário "Histórias da fome no Brasil", dirigido por Daniel Souza, filho de Betinho, e exibido na manhã deste sábado no Odeon, precisou ser adaptado depois de quase pronto para estar em consonância com a atual realidade brasileira. A exibição do longa, uma ação da campanha Natal sem Fome, que começou em outubro, mostrou que o país, que estava fora do mapa da fome, da ONU, está com o sinal vermelho ligado.
— Na década de 1990, tínhamos 32 milhões de pessoas com fome. Em 2014, conseguimos cair para três milhões. Mas dados do ano passado, mostraram que esse número já aumentou para sete milhões. Por esse motivo, nós, da Ação da Cidadania, voltamos com o Natal sem Fome — explicou Souza. — Estamos em 19 estados e foram os nossos representantes desses lugares, que nos informaram sobre a aumento da pobreza e nos pressionaram a voltar com essa campanha, após dez anos que estávamos sem precisar promovê-la.
O filme, que começa com um trecho do poema “ABC do Nordeste Flagelado” e a imagem do esqueleto de uma criança morta por nutrição, comoveu a plateia. A atriz Zezé Motta, que compareceu à sessão mal conseguia falar de tão emocionada que estava.
— Foi muito difícil me confrontar com essa realidade, sabia que ia doer. Ter confirmado o descaso do ser humano com ele próprio foi como uma facada no peito. Mas a gente tem que enfrentar essa realidade e continuar com essa luta, que o saudoso Betinho começou. É nosso dever dar continuidade a isso — disse.
Para a produtora do documentário, Luciana Boal Marinho, o Natal sem Fome não é capaz de resolver o problema do país, mas chama atenção para uma questão grave.
— Quando retomamos essa campanha, sabemos que não vamos resolver a questão da fome, mas colocamos o assunto na mídia, passamos a discutir sobre ele e, finalmente, conseguimos chamar a atenção dos nossos representantes políticos para o tema. Foi isso que o Betinho fez, quando o Brasil tinha vergonha de falar da fome e dizia que era da ordem da natureza, de uma força divina, em vez de assumir que era uma produção humana, um problema ético, antes de qualquer coisa. Quando houve vontade dos políticos e conseguimos sair do mapa da fome, o nosso modelo foi exportado para dezenas de países. Mas, infelizmente, assim como já fomos referência na luta contra a AIDS e estamos deixando de ser, também regredimos nesse assunto.
Há 25 anos como voluntário da Ação da Cidadania, desde que a ONG foi fundada, Edir dariux Teixeira, coordenadora do comitê Servo do Senhor, em Canaã, Santa Cruz, que parou de estudar na sexta série, após ter sido estuprada a caminho da escola, acredita que o maior problema da miséria é a falta de uma educação de qualidade.
— Quando entrego as sextas básicas para as famílias que atendo, sempre faço eles me ouvirem por umas horinhas. Falo sobre cidadania, controle de natalidade, compaixão e ensino sobre alguns direitos que as pessoas nem sabem que têm — contou ela, que ganhou de um parente um terreno ao lado de sua casa, que funciona como galpão de doações. — Nunca vou perder a esperança no ser humano, nasci para ajudar, ser solidária.



