Início Rio de Janeiro Dedo de Deus, a nova paisagem para quem busca tranquilidade
Rio de Janeiro

Dedo de Deus, a nova paisagem para quem busca tranquilidade

RIO - Todos os dias, assim que acorda, a arquiteta Christiane Nunes Magalhães vai até a varanda, olha para o céu e, dependendo de como está o Dedo de Deus, planeja sua rotina. Há dez meses morando em Teresópolis, na Região Serrana, ela já se acostumou a observar o pico de mais de 1.600 metros de altura, um dos símbolos do município, como se consultasse o serviço de meteorologia. Nos dias de neblina, o início da jornada de trabalho começa mais tarde, num ritmo que ela só se permitiu ter depois de trocar uma cobertura na Praia de Icaraí, em Niterói, por um apartamento menor no Alto, na cidade serrana. Atraída pela sensação de segurança do município, pela temperatura amena e pelo custo de vida mais em conta, a nova moradora encontrou na região outros migrantes que, como ela, decidiram deixar o burburinho da Região Metropolitana.

— Fui à reunião de pais da escola de meu filho e descobri que, das 70 crianças matriculadas recentemente, 90% eram novos moradores da cidade — conta ela, que deixou o escritório de arquitetura no Rio com um dos filhos, passou a trabalhar em esquema e mudou-se com o caçula, de 16 anos, para um imóvel em frente ao colégio onde o rapaz agora estuda.

AUMA HORA E MEIA DE PARAÍSO

A arquiteta Christiane Magalhães, de 55 anos, já adorava o clima e o verde de Teresópolis, onde a família tem um sítio há quatro décadas, mas admite que, nos últimos tempos, passou a olhar para a cidade — de ruas mais tranquilas e silenciosas — com outra perspectiva. O fator segurança foi o principal atrativo para subir definitivamente a Serra.

—Eu me dei conta de que precisava mudar. E a violência em Niterói me fez pensar que não podia criar meu filho adolescente com tranquilidade. Eu acompanhava obras aqui em Teresópolis e passei a vir com muita frequência no último ano. Voltava para casa deprimida, com a sensação de que estava a uma hora e meia do paraíso — disse Christiane, que garante não sentir falta do agito urbano.

Os amigos e sócios Victor Farias, de 50 anos, e Isabel Rezende, de 56, também levaram isso em conta quando resolveram morar e montar uma pizzaria no bairro Agriões. Isabel, que vivia no Jardim Icaraí, em Niterói, alugou um apartamento bem pertinho da tradicional Feirinha de Teresópolis, enquanto Victor preferiu se instalar numa suíte na própria casa de massas, a Nonna Amélia, aberta há duas semanas.

— O Rio vive uma epidemia de violência. E Niterói também deixou de ser a Cidade Sorriso. Aqui, encontramos uma casa enorme, por um valor muito abaixo dos cobrados lá embaixo. Se fosse no Rio, jamais conseguiríamos abrir uma pizzaria dessas sem ter pelo menos dois seguranças na porta. Ainda não posso dizer se realmente é seguro, porque estou há pouco tempo, mas me espantei com os tipos de crime no noticiário outro dia: rinha de galo e jogo do bicho — contou Victor, que morava em Vila Isabel, e ainda hoje se lembra com nitidez de um assalto em que teve uma arma apontada para sua cabeça na porta de casa.

Mas não há só elogios para a cidade. Teresópolis teve cinco prefeitos nos últimos seis anos, e o atual, Mario Tricano (PP) — que está licenciado e já foi condenado por improbidade administrativa e já respondeu por ligação com o jogo do bicho e homicídio —, causou um alvoroço na cidade ao acusar todos os 12 vereadores da Câmara de fraudes em licitações. Todos negam as acusações. Para o estudante João Lima, além dos escândalos políticos, a cidade sofre com a falta de manutenção e de áreas de lazer, além do desemprego alto:

— As praças estão abandonadas, sem cuidado. Há problemas de iluminação em muitos trechos. Isso atrapalha a segurança, que já não é mais a mesma de antes.

A MAIS PACÍFICA DO ESTADO

Teresópolis ocupa o primeiro lugar no ranking das cidades menos violentas do Estado do Rio, segundo o Atlas da Violência de 2017. O levantamento, feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mostra ainda que a cidade fica em décimo lugar entre as com mais de cem mil habitantes de todo o país. O economista Daniel Cerqueira, um dos autores do estudo, acredita que o chamado “controle social da violência” pode explicar os baixos índices de criminalidade.

— A cidade é pequena, e as pessoas se conhecem. O risco de um bandido ser identificado e ser preso é maior. Uma cidade com muita migração e mudanças na estrutura urbana facilita o enfraquecimento deste elo de controle social da violência. Fatores como a densidade demográfica e as boas taxas de escolaridade também podem influenciar — diz Cerqueira.

Dados do IBGE revelam que a última colocada no ranking do Ipea no estado, Queimados, tem uma densidade demográfica oito vezes maior que Teresópolis.

Titular da 110ª DP (Teresópolis), o delegado Paulo Roberto de Freitas trabalhou na Baixada Fluminense e na capital, antes de ser transferido — inicialmente a contragosto, ele confessa — para Teresópolis.

— É uma cidade tranquila, cercada de Mata Atlântica, onde as pessoas ainda guardam costumes como deixar as portas e as janelas abertas — comenta.

Para ele, até o comportamento dos policiais é diferente:

— São agentes da região, criados aqui e que acabam tendo um maior comprometimento.

MERCADO AQUECIDO

O clima de montanha de Teresópolis, no alto da Serra dos Órgãos, torna o ar-condicionado um equipamento supérfluo mesmo no alto verão. Para as produtoras de cogumelos Juliana Loures, de 35 anos, e Roberta Couto, de 33 anos, namoradas e sócias, o lugar tem o clima ideal para a produção de shimeji. Elas levaram oito meses procurando a casa perfeita: um imóvel de 800 metros quadrados no bairro de Taumaturgo, com cinco quartos, closet, quintal, canil e uma área imensa, numa espécie de porão, onde as duas colocaram as estufas e os exaustores da empresa, a Amoki.

— Juntou a questão pessoal com a profissional. Eu morava no Rio, no Leblon, e ela, em Petrópolis, no Bingen. Ficávamos neste sobe e desce. Optamos pela Serra, primeiro, por causa da temperatura e da umidade ideais para os cogumelos. Depois, veio a tranquilidade. Aqui, as pessoas são muito amistosas. Então, tudo flui muito bem — conta Roberta, que desce para o Rio uma vez por semana para distribuir a produção.

Para o gaúcho Rubeny Goulart, de 62 anos, Teresópolis também tem o ambiente perfeito para realização de um sonho. Depois mais de 40 anos vivendo no Rio, o jornalista aposentado escolheu uma casa de quatro quartos, no Parque do Imbuí, com vista para uma vasta área verde, onde montou a Mano a Mano, uma hospedaria e parrilla. A mulher e as filhas ficaram no apartamento de Botafogo.

— A cidade é um encanto. Um lugar de cordialidade. E aqui, diferentemente do que se pensa, existe vida noturna — garante ele, que serve refeições sob encomenda e promove pequenos shows.

Rubeny optou por pagar aluguel, mas já pensa em comprar um imóvel. Segundo Ceil Freitas, proprietário da Rosângela Imóveis, a procura por compra de imóveis na cidade aumentou 55% este ano. A maioria dos interessados é do Rio.

Siga-nos no

Google News
Quer receber todo final de noite um resumo das notícias do dia?