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Motorista diz que pouco antes de tiros, carro foi revistado por PMs na Rocinha

RIO - O depoimento do motorista italiano Carlo Zaninetta, de 42 anos, que transportava um grupo de turista em um passeio na Favela da Rocinha, reforça a tese que ocorreram falhas nos protocolos dos policiais militares que faziam o policiamento da comunidade e atiram no carro matando a turista Maria Esperanza Jimenes. Segundo Zaninetta, pouco antes dos disparos terem sido efetuados, um grupo de PMs parou o veículo e fez uma vistoria minuciosa no interior.

O motorista revelou que a abordagem aconteceu por volta das 10h16m próximo ao Largo do Boiadeiro. Ele estava sozinho no carro e seguia para resgatar os turistas e a guia que faziam um passeio a pé na comunidade. Um grupo de seis policiais militares, que estava na calçada, foi para a rua e mandou o Zaninetta parar. Não havia carro da PM e nem uma blitz no local. O motorista contou que apenas os policiais estavam no local. Durante a revista do veículo os PMs não pediram a habilitação do motorista e nem mesmo os documentos do veículo.

— Eles pediram que eu desembarcasse do carro e realizaram a vistoria no interior. Não pediram minha habilitação e nem os documentos do carro. Expliquei aos policiais que estava indo buscar os turistas e a guia no Largo do Boiadeiro (que fica na parte baixa da Rocinha) — contou Zaninetta em seu depoimento.

Embora não faça nenhuma menção, o depoimento revela que faltou comunicação entre os policiais. Se os PMs que fizeram a revista tivessem alertados aos seus colegas que o veiculo transportava turistas e não bandidos em fuga, a morte poderia ter sido evitada. Zaninetta disse ainda que no Largo do Boiadeiro, os turistas embarcaram no carro e o grupo seguiu por uma rua que leva à saída da Rocinha.

O motorista conta que descia a favela atrás de uma Van de cor branca quando escutou três disparos. O último tiro foi o mais forte e ele “sentiu tremer seu assento”. Nesse momento, a Van branca acelerou e o Zaninetta fez o mesmo. O motorista relatou que desceu acelerando até ver um grupo de cerca de 15 policiais militares.

— Eles vieram na direção do carro com os fuzis apontados para nós, gritando: “Sai do carro filho da puta! Desce, desce!”.

Somente nesse momento, segundo o motorista, eles perceberam que uma das ocupantes havia sido atingida por uma bala. Que os policiais socorreram Maria Esperanza.

Carlo Zaninetta também contou em seu depoimento aos policiais civis, encarregados de investigarem o caso, que desde o início da guerra na Favela da Rocinha, era a segunda vez que levava turistas à comunidade. “Antes da guerra, era um passeio comum, sendo que levava turistas pra lá de três a quatro vezes por semana. Que na data de hoje (segunda-feira) ninguém avisou ao declarante que tinha troca de tiros e que dois policiais militares haviam sido baleados”.

— Ninguém me avisou também sobre tiros na noite anterior e nem durante a madrugada na Rocinha — afirmou Zaninetta.

A empresa de turismo Rio Carioca Tours, que organizou o passeio à Favela da Rocinha, reiterou em nota enviado ao GLOBO que é uma agência de turismo legalizada e conta com guias credenciados e que o grupo de Maria Esperanza era acompanhado por uma guia credenciada acostumada a fazer tours pela Rocinha, um roteiro muito procurado por turistas do mundo todo. Esclareceu ainda que deu ao grupo a opção de ir ao Jardim Botânico, proposta que não foi aceita. A agência revelou também que “não recebeu qualquer informação da Polícia nesta segunda-feira sobre confrontos ou problemas na comunidade”.

A Rio Carioca Tours e seus colaboradores também disseram que estão à disposição da polícia para prestar quaisquer esclarecimentos e espera que o caso seja elucidado o mais brevemente possível. A empresa também está prestando todo apoio à família da passageira. Por fim, a empresa informou que lamenta a morte da turista Maria Esperanza Ruiz.

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