RIO - Em menos de 24 horas, duas histórias em pontos diferentes da cidade falam mais sobre a crise vivida na segurança do estado do que qualquer estatística. Brendo, de 21 anos, morador do Jacarezinho, era mototaxista, e Felipe, de 16 anos, do Alemão, cursava o ensino médio e sonhava ser militar. Os dois, que moram em comunidades dominadas por facções criminosas diferentes, que se enfrentam e deixam o Rio em meio a um fogo cruzado, tiveram em comum um destino trágico: morreram no Hospital Salgado Filho, no Méier, que virou a principal porta de entrada de baleados nos últimos confrontos da Zona Norte. O destino de Felipe e Brendo é o mesmo de jovens que morrem quando estão prestes a entrar ou chegam à vida adulta. Dados do último Mapa da Violência revelam que, no Estado do Rio, 2.002 jovens entre 15 e 29 anos foram assassinados em 2014 — no mesmo período, houve cerca de 30 mil mortes na mesma faixa etária em todo o Brasil. A média, uma das mais altas do país, tem se mantido ao longo dos anos.
A morte de Brendo Souza Silva, para amigos e moradores, não tem explicação. Vizinha do rapaz, Tânia Regina, de 49 anos, garante que ele não estava armado e que foi baleado, na manhã de ontem, quando ia tomar um café.
— Ele ia à casa de uma tia tomar um café. Estava num beco com o primo, e os policiais atiraram. Foi o caveirão (veículo blindado da polícia) que o levou para o hospital — conta a moradora. — As operações aqui são frequentes. Hoje, começaram logo que amanheceu, por volta das 5h.
Para a PM, Brendo era suspeito de envolvimento com o tráfico. De acordo com um registro policial, ele estava com pistola e drogas e morreu em confronto.
Segundo testemunhas, Felipe Farias Gomes de Souza morreu porque estava no lugar errado, na hora errada, algo muito comum em favelas. Se vivesse mais alguns anos, era provável que um dia estivesse do outro lado, cerrando fileiras com os policiais. Ele sonhava ser militar. O irmão mais velho, Gleison Farias, de 27 anos, contou ontem que ele não via a hora de entrar para o quartel. A família é cria do Alemão, mora na Favela Nova Brasília, uma das 13 comunidades do complexo, há 25 anos. De uns tempos para cá, todos alimentam o desejo de se mudar, mas falta dinheiro. Com a morte do rapaz, a mãe, Teresa, de 42 anos, desmoronou. Desde que recebeu a notícia, ela está à base de tranquilizantes. No corredor do Salgado Filho, antes de saber da morte do filho, ela apenas repetia que ele era uma “pessoa maravilhosa”, que nunca esteve envolvido com “coisa errada”. Agora, prefere se calar.
— Está insuportável (a situação no Alemão). É tiroteio todo dia. Hoje mesmo (ontem), já teve um. Pensar em mudar, a gente pensa, mas como, se não temos condição financeira? Apesar de conviver com a violência, a gente sempre acha que não vai acontecer com a nossa família. Pensávamos assim — diz Gleison.
Um amigo de Felipe contou que estava com ele em um acesso à favela, na quarta-feira à noite. Os dois participavam de um protesto contra a morte de Paulo Henrique de Morais, de 13 anos, também baleado em um confronto no Alemão. Voltavam do Cemitério de Inhaúma, onde o garoto foi enterrado, e participavam de uma manifestação que teve cenas violentas. Policiais reprimiram manifestantes que queimaram objetos e pararam o trânsito. Desconfiados de que haveria traficantes infiltrados, PMs entraram na favela, dando início a um tiroteio. Felipe foi atingido na cabeça. A testemunha conta que estavam no Beco do Bicheiro. Uma terceira pessoa também foi baleada de raspão. A Polícia Civil informa que investiga o caso.
Em seis dias de guerra no Alemão, já houve cinco mortes e 12 feridos. Os confrontos se intensificaram depois que a PM decidiu instalar uma torre blindada na região central do conjunto de favelas. A rotina tem sido de roleta-russa. Na manhã de quinta-feira, em novo tiroteio, Cláudio da Silva Hipólito, de 30 anos, foi atingido por estilhaços de tiros na mão e no braço. Operador de guilhotina em uma fábrica de papel, ele deixava sua casa, na Alvorada, uma das áreas mais perigosas do Alemão, para ir ao trabalho. Cláudio deslocou a clavícula ao cair no chão.
— O dia estava calmo, mas assim que ele saiu de casa escutei um tiro. Abri o portão, e ele estava caído na calçada. Comecei a puxá-lo para dentro. Os policiais atiraram mais, um deles gritava “é vagabundo”. Eu respondi “não, é meu marido, é morador” — conta Ana Cláudia Silva Santos, de 22 anos, mãe de quatro crianças. — Eles acham que todo negro é vagabundo.
Também nesta quinta-feira, além dos confrontos no Jacarezinho e no Alemão, que fizeram vítimas, houve tiroteios na Maré e na Cidade de Deus.
Para especialistas, a desmotivação e a desvalorização do policial enfraquecem as forças de segurança e favorecem a ação dos criminosos. Somente este ano foram 59 policiais mortos. O ex-secretário nacional de Segurança Pública, coronel José Vicente da Silva Filho, estima que a situação é tão grave que mesmo medidas certeiras só surtirão efeito daqui a três anos. Ele observa que o sentimento de segurança ou insegurança é construído ao longo do tempo.
— Atrasos de salários e gratificações e viaturas paradas por falta de manutenção são muito negativos, contribuem para o momento de ruptura. Quando a polícia dá um “break” nas ações, é muito ruim. As prisões diminuem, assim como as apreensões de armas e drogas. O patrulhamento fica escasso, e a fiscalização de carros afrouxa. A violência cresce muito rapidamente porque os criminosos se aproveitam da fragilidade dos agentes de segurança — diz ele. — Se uma atitude para mudar este estado for tomada agora, vai demorar, no mínimo, três anos para que as coisas se encaixem.
Para Vinícius Cavalcante, diretor regional da Associação Brasileira de Profissionais de Segurança, o desmantelamento da estrutura investigativa favorece o rearranjo das quadrilhas.
— Os criminosos estão fazendo rearranjos diante da fraqueza das forças de segurança. A criminalidade é oportunista. Hoje, a polícia atua no escuro, sem um serviço de inteligência adequado. O nosso serviço de inteligência ideal estava sendo construído quando foi desmontando por razões políticas. A nossa polícia sabe menos de armas agora do que em 2007.



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