RIO - Um relatório pericial do Ministério Público estadual reforça a suspeita que os dois homens que aparecem sendo baleados por PMs num vídeo gravado no dia 30 de março em Acari estavam feridos e não esboçaram reação no momento em que foram alvejados. A análise foi feita pela Divisão de Evidências Digitais e Tecnologia (Dedit) da Coordenadoria de Segurança e Inteligência do órgão e contraria uma tese da defesa dos policiais, segundo a qual uma das vítimas pegaria uma arma. No mesmo dia, a estudante Maria Eduarda Alves da Conceição, de 13 anos, foi morta por uma bala perdida dentro da Escola Municipal Jornalista e Escritor Daniel Piza, a poucos metros do local onde foram gravadas as imagens.
No vídeo, o sargento David Gomes Centeno e o cabo Fábio de Barros Dias disparam na direção de Alexandre dos Santos e Julio Cesar Ferreira. A perícia confirma que Julio Cesar faz "um movimento de rotação de cabeça, meio giro da cintura escapular, extensão de membro superior esquerdo e leve flexão da perna esquerda, momentos antes de ser atingido por disparo de arma de fogo".
O relatório aponta ainda que Alexandre "eleva a cabeça e o ombro direito em consequência da movimentação do braço direito momentos antes de ser atingido por disparo de arma de fogo". Na análise das imagens, foram identificados uma mochila, duas pistolas, um fuzil e um carregador que estavam perto das vítimas. O material foi apreendido pela Delegacia de Homicídios.
A análise do MP consta do processo contra os dois policiais na 3ª Vara Criminal. Os advogados dos PMs, Luciana Pires e Marcello Ramalho, em defesa prévia apresentada à Justiça, criticam o relatório, que, de acordo com ele, foi feito de forma unilateral e sem participação da defesa. Para eles, o documento não pode ser equiparado à perícia oficial. A análise é assinada por duas fonoaudiólogas da Dedit, Eline Portela e Maria do Carmo Gargaglione, esta última diretora do órgão.
"A utilização dos laudos ou de pareceres emitidos pelo setor criado na estrutura administrativa do Ministério Público serve somente para balizar seus futuros atos pré-processuais ou processuais, não tendo, via de consequência, como ser equiparado à perícia", observam. Segundo eles, o perito oficial tem função de auxiliar da Justiça, inclusive sendo submetido às mesmas causas de suspeição e impedimento do magistrado.
A defesa contesta a afirmação do MP de que Julio Cesar não tinha poder de reação. Os advogados dizem que ele tentava pegar uma pistola e, por isso, Dias atirou em legítima defesa. Eles querem a retirada do relatório do processo criminal.
Os advogados dizem ainda que a denúncia é inepta. O MP alega que o tiro de Centeno causou a morte de Alexandre, mas eles sustentam que o laudo pericial oficial demonstrou que o disparo não foi responsável pelo óbito.
A promotora Carmen Eliza Bastos de Carvalho, respondeu que o laudo pericial oficial ainda será avaliado e que a análise do MP foi pedida apenas com a finalidade de formar seu "juízo de convencimento". A próxima audiência do caso será realizada no dia 30 de agosto. Centeno e Dias respondem ao processo em liberdade, mas foram afastados do policiamento nas ruas.




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