Sabe não? Não é não! Essa mensagem tão cara às mulheres, que ecoou pelas ruas do Rio no carnaval deste ano e foi até transformada em tatuagem, está prestes a atravessar fronteiras. O grupo de meninas que se mobilizou para produzir tattoos temporárias e distribuí-las gratuitamente entre as folionas, criando assim uma rede espontânea de proteção contra o assédio, lançou uma campanha de financiamento coletivo para ampliar o alcance na festa do ano que vem. Elas estão perto de atingir a meta necessária para encomendar 25 mil unidades em uma fábrica de São Paulo, o suficiente para espalhar o recado em blocos de cinco estados: além de Rio e São Paulo, haverá distribuição nas ruas de Minas Gerais, Bahia e Pernambuco.
— Como já tínhamos conseguido o acesso no carnaval do Rio, o apoio de blocos e uma rede de amigos, começamos a entrar em contato com blocos de outras cidades, em busca de apoio para fazer essa distribuição mais ampla. Sabemos que nos carnavais de Recife, Olinda, Salvador, Belo Horizonte, Ouro Preto e São Paulo as mulheres também sofrem com o assédio e precisam de uma força para combatê-lo — explica a estilista Aisha Jacob, uma das organizadoras da campanha.
No Rio, elas já conseguiram apoio dos blocos Tambores de Olokun, Mulheres Rodadas, Baque Mulher e Pipoca e Guaraná. Mas estarão presentes em todos os desfiles da cidade, ainda que indiretamente.
— Não queremos apoio de bloco que é conivente com assédio, mas faremos a distribuição das tatuagens em todos eles, para que o assédio não se perpetue — explica a gestora de projetos Julia Parucker, outra integrante do grupo de organizadoras.
Desde o início da campanha, em 15 de setembro, 156 pessoas abraçaram a iniciativa: foram arrecadados R$ 10.630, ou seja, 58% dos esperados R$ 18.300. A possibilidade de contribuição parte de R$ 10 e chega a R$ 700. Esta última oferece como recompensa uma tatuagem de verdade, feita pela tatuadora paulista Mari Kuroyama, com desenho a ser escolhido pelo apoiador. Mas elas acreditam que, mais do que receber algo em troca, o que tem motivado as doações é a força da causa.
— Todo mundo entendeu que é preciso as mulheres se olharem e se reconhecerem nesse lugar de “sim, eu também sofro assédio”. A adesão este ano foi imensa, linda e comovente. Mais uma prova de que esse assunto precisa ser falado principalmente no carnaval, em que ficamos muito expostas. Somos induzidas a não falar, a banalizar ou a aceitar que é isso mesmo. E não é — destaca Aisha.
A assistente de câmera Luka Borges, também à frente do projeto, faz coro:
— Parece que temos que desenhar, né? Os homens não entendem. Então, vamos desenhar. Essa coisa de usar o corpo como bandeira de uma luta é muito forte. Nossa voz está sendo cada vez mais ouvida.
Aisha decidiu mobilizar as amigas no fim de janeiro, após ser vítima de assédio numa festa. Primeiro, elas criaram um grupo no WhatsApp e, em pouco tempo, reuniram 40 meninas, que, juntas, resolveram produzir cerca de quatro mil tatuagens temporárias com a mensagem “Não é não”, que grudaram no corpo de inúmeras mulheres durante o carnaval carioca. A inspiração partiu de uma cartela de carnaval que a loja Le Petit Pirate, especializada nesse tipo de tattoo, fez em parceria com o site RIOetc.
— Fico feliz de ver que ajudamos a difundir uma mensagem tão necessária. Esperamos que ela realmente se espalhe pelo Brasil e seja absorvida — torce Tiago Petrick, fundador do RIOetc.
A campanha “Não é não” aceitará contribuições até dia 31, no site benfeitoria.com/naoenao.


