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Arte de Bispo do Rosário será tema de desfile da Acadêmicos do Cubango

“Qual a cor da minha aura?”, indagava Arthur Bispo do Rosário aos que entravam em uma das dez solitárias da Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, que viraram uma espécie de galeria de arte no período mais produtivo do artista. As respostas para a pergunta variavam, e muito. Mas o que Bispo do Rosário queria dizer, segundo os pesquisadores de sua obra, era muito claro: ele pretendia fazer uma espécie de “inventário do mundo”, contabilizando objetos simplórios: sobre a Terra, haveria 3.025 moedas de 10 centavos ou 631 pratos de alumínio. Tudo lhe era ditado pelas alucinações da esquizofrenia.

A obra de Bispo do Rosário é marcada pelo uso de materiais rústicos, tecidos, botões, fios, lã e madeira. Essa trama criativa deverá ser representada, no próximo carnaval, no desfile da Acadêmicos do Cubango, escola de samba de Niterói, cujo enredo “O Rei que bordou o mundo” é uma homenagem ao artista.

Para aproximar o universo carnavalesco do psiquiátrico, a agremiação — que sonha com o inédito acesso à elite da folia carioca e será a quinta a desfilar no sábado de carnaval na Marquês de Sapucaí — fez um ensaio fotográfico na Colônia Juliano Moreira, com parte dos 20 figurinos que serão levados para a Passarela do Samba durante o desfile do Grupo de Acesso. A ideia dos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora é provocar uma reflexão.

— Fizemos questão de fazer o ensaio para mostrar que é possível o diálogo entre universos tão diferentes. A foto dentro do pavilhão em que ele estava preso é, ao mesmo tempo, a imagem de um Bispo aprisionado, mas também de um rei negro e altivo, que olha a vida de frente, com a cabeça erguida, mostrando a sua obra ao mundo. A gente leva as fantasias para esse espaço até para mostrar o contraste do horror que era (o ambiente da prisão) em comparação com a infinita capacidade de criação e subversão — explica Bora, acrescentando que o enredo não terá visão estereotipada da loucura. — O manicômio não tinha nada de engraçado. Isso vai ser representado suavemente, porque precisamos falar, mas de maneira poética. Ele é um dos maiores artistas plásticos contemporâneos do Brasil que superou toda a violência manicomial. Era negro, pobre, nordestino. Transformou tudo isso numa manifestação artística de magnitude absoluta.

As fantasias escolhidas foram “Roda da fortuna”, “Tabuleiro de xadrez”, “O Rei dos reis” e “Correntes marítimas”. As primeiras representam duas das mais importantes obras de mesmo nome, enquanto as duas últimas são, respectivamente, homenagens ao próprio Bispo —, que se apresentava como o rei dos reis —, e ao festival cultural “parafusos”, que faz referência a uma dança folclórica de Sergipe, onde teria nascido o artista.

— A obra é precária no sentido de materiais. É feita basicamente de papelão, madeira, lã, fios, tecidos. É uma produção opaca, extremamente frágil e com uma estética que não é carnavalesca. Traduzir é um desafio. Precisamos mexer um pouco no conceito do que é belo no carnaval, e a obra do Bispo possibilita isso. É um carnaval que possibilita brincar com a desconstrução do convencional — explica Gabriel Haddad.

Um exemplo dessa “tradução” carnavalesca está nos bordados, muito presentes na produção do Bispo. Como não haveria tempo hábil para a reprodução da técnica com a qualidade ideal, a saída foi utilizar uma tinta especial que garante efeito semelhante e estará em outras nove das 20 fantasias. A “Roda da fortuna” traduzirá uma das essências do trabalho: a , termo em francês usado para a técnica artística de colagens de objetos e materiais. A fantasia trará canecas e carrinhos, entre outros itens.

A parceria entre a escola de samba e a equipe do Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea, vinculado à Secretaria municipal de Saúde, na Colônia Juliano Moreira, começou a se intensificar com uma mesa-redonda, em agosto, na quadra da Cubango. O debate teve a presença da diretora do museu, Raquel Fernandes, e da psicóloga Denise Correia, que conviveu com o Bispo. O próximo passo é a produção, a partir de novembro, de adereços que serão utilizados na segunda alegoria da verde e branco, que representará um grande veleiro. A confecção será feita em oficinas com internos da própria colônia. Hoje, existem no local 22 residências terapêuticas, onde moram 133 pessoas em acompanhamento psicossocial.

A história de Bispo do Rosário foi reconstituída a partir de fragmentos, muitas vezes, com versões divergentes. A tese mais aceita por pesquisadores é a de que Bispo do Rosário nasceu Arthur, na cidade de Japaratuba, em 5 de outubro de 1909, filho de Claudino Bispo do Rosário e Blandina Francisca de Jesus. Ex-boxeador e integrante da Marinha, teve o primeiro surto em 22 de dezembro de 1938.

— A obra do bispo nunca passou por inventário. Temos cerca de 802 obras tombadas pelo Inepac, mas sabemos que existem outras — diz o produtor do Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea, João Gilberto.

Aberto de segunda a sexta-feira, das 10h às 17h, o museu tem entrada gratuita e dispõe de visitas guiadas às terças e às quintas-feiras.

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