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Governo negocia cargos em meio ao caos em frente à Alerj

Do lado de fora do Palácio Tiradentes, sede da Assembleia Legislativa (Alerj), a violência explodia, na tarde de quarta-feira: perto de barricadas montadas no meio do asfalto, um ônibus era incendiado enquanto manifestantes e PMs se enfrentavam. Do lado de dentro, o clima era mais tranquilo que o do fim do ano passado, quando a Casa derrubou praticamente todas as propostas do primeiro pacote de ajuste fiscal apresentado pelo Executivo. A guerra política parece ter dado lugar a um acordo baseado no loteamento de cargos na administração estadual, que se esforça para reconquistar a base desgarrada. O som de bombas, uma trilha sonora recorrente naquela região do Centro, sequer interrompeu uma entrevista coletiva do secretário da Casa Civil, Christino Áureo, que substituía o governador Luiz Fernando Pezão na cerimônia de abertura do ano legislativo.

Nenhum projeto do novo pacote, que inclui itens como a privatização da Cedae, o aumento da contribuição previdenciária de 11% para 14%, a criação de uma alíquota temporária de 8% nos salários de servidores e uma autorização para mais R$ 2,5 bilhões em empréstimos, chegou ao plenário. Nas palavras de um deputado que pediu anonimato, a Alerj vive um momento de “varejo”. Após desistir de cortar seis secretarias, o governo recebeu promessas de apoio de PR, PRB, DEM, PP, PT, alguns nanicos e do próprio PMDB, que, em 2016, tinha uma espécie de ala rebelde, mais jovem. Ela foi parcialmente domada pela nomeação de Pedro Fernandes, que costumava questionar ações do Palácio Guanabara, para a Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos.

O PP, que tem quatro deputados na Alerj, acabou conquistando mais um cargo no Executivo: depois da nomeação do próprio Chritstino Áureo para a Casa Civil, Jair Bittencourt assume a Secretaria de Agricultura e Pecuária. A pasta, antes ocupada por Áureo, estava na lista das que seriam extintas por Pezão, como medida de economia. Há rumores de que o PR, que também fechou acordo com o governo, conseguirá a direção de um órgão. O DEM, por sua vez, ficou satisfeito com a nomeação de Milton Rattes para a Secretaria de Trabalho e Renda.

Ao PDT, segundo fontes da Alerj, foram oferecidas as secretarias de Ciência e Tecnologia e a presidência da Faetec. No entanto, o líder do partido, Luiz Martins, disse que a legenda votará contra a privatização da Cedae e a alíquota extra de 8%. O deputado estadual Thiago Pampolha (PDT), que foi nomeado para a pasta de Esporte e Lazer, terá que se afastar do partido.

Governistas acham que já têm de 42 a 46 votos para a aprovação da privatização da Cedae, uma das contrapartidas exigidas pelo governo federal no acordo que prevê socorro às finanças do estado. Porém, deputados da bancada de oposição preveem surpresas durante a votação da proposta, que deverá acontecer na próxima semana. Para eles, a volta dos protestos violentos no entorno da Alerj poderá fazer com que parlamentares mudem de posição.

Entre opositores e governistas, só há, por enquanto, um consenso: todos acham que uma eventual derrota nas primeiras (e mais importantes) votações do novo pacote pode levar ao impeachment de Pezão.

O governo não reconhece o risco e mantém o discurso conciliatório, afirmando que uma união de forças é fundamental para o Rio sair da crise. Foi nesse tom, que Christino Áureo abriu o ano legislativo, lendo um texto escrito por Pezão:

— Acreditamos que contaremos com a sensibilidade da Casa, que já amadureceu bastante.

Reeleito ontem para seu sexto mandato na presidência da Alerj, em chapa única, Jorge Picciani também defendeu a aprovação do pacote:

— O que vamos tratar aqui (na semana que vem) é importante. Saberemos quem são os que querem recuperar o estado e os que que querem continuar vendo bombas.

fogo, tiros e bombas nas ruas

Enquanto as autoridades explicavam, em entrevistas e discursos, seus pontos de vista, a tensão tomava conta da Rua Primeiro de Março e de outras vias próximas à Alerj. Por volta das 14h, um grupo de manifestantes usou cordas para puxar e derrubar grades que cercavam o Palácio Tiradentes. Em seguida, PMs dispararam balas de borracha e lançaram bombas de gás lacrimogênio contra a multidão. Teve início, então, uma verdadeira guerra.

Homens mascarados atearam fogo a um ônibus na Avenida Rio Branco. Ainda havia passageiros no véiculo quando surgiram as primeiras chamas, mas, segundo o Corpo de Bombeiros, ninguém se feriu. Um policial civil, identificado como Vandré Nicolau de Souza, da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), foi detido. Segundo a PM, ele fez quatro disparos contra policiais militares na esquina da Rua Nilo Peçanha com a Avenida Rio Branco e, em seguida, entrou no metrô da Carioca. Ele desembarcou na estação Jardim Oceânico, na Barra, onde foi rendido por uma equipe que o seguiu.

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