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Falhas no 190 afetam atendimento ao cidadão

Em meio ao recrudescimento da violência e à crise financeira que afeta o governo do estado, o principal canal de emergência da Polícia Militar, o 190, passa por problemas operacionais que dificultam o atendimento à população. Quem telefona para o número pode ser surpreendido por uma espera de mais de meia hora e, em alguns casos, nem consegue falar com a central. Há ainda reclamações sobre a falta de preparo de funcionários e de erros no sistema de tecnologia. A Secretaria estadual de Segurança nega que estejam ocorrendo falhas, mas, devido à escassez de recursos, o contrato com a empresa Oi, responsável pela operação do serviço, está sendo renegociado. A dívida do estado com a companhia telefônica, referente ao 190, já passa de R$ 4,5 milhões, de acordo com o portal Transparência do governo.

Na noite do dia 18, o estoquista Carlos Figueiredo tentou informar à polícia, por meio do 190, que o filho de 13 anos havia sido roubado perto do Tribunal de Justiça do Rio, na Praça Quinze. O garoto ficou sem o celular. Carlos diz que ligou para o serviço por volta das 21h, insistiu por aproximadamente uma hora, mas não foi atendido:

— O 190 estava fora do ar. Ninguém atendia. Ligamos para duas delegacias do Centro, mas também não conseguimos falar. Fizemos contato com o batalhão da área do Estácio, e disseram que entrariam em contato com a UPP da região. Como o rastreador do aparelho indicava que ele estava parado há 40 minutos no mesmo lugar, disseram que deveria estar dentro de um imóvel e, sem um mandado judicial, não poderiam entrar no local. Resumindo: se fosse algo emergencial, se tivesse alguém em risco, estaríamos totalmente descobertos.

O problema com o serviço telefônico se repetiu na madrugada do último domingo. Um morador do Leblon contou que ligou para o 190 por volta das 3h, para reclamar de barulho e foi atendido por uma mensagem eletrônica, que pedia desculpas pelos problemas no sistema e informava que o ouvinte teria que aguardar na linha. O homem desistiu após 35 minutos.

— Aí, entendi por que o som ficou alto até tão tarde. Quem tentou reclamar não conseguiu. Ou seja, é provável que o serviço mais importante de emergência da cidade esteja com funcionamento precário — comentou o homem, que prefere não ser identificado.

A burocracia no atendimento e o despreparo das equipes também têm levado a população a desistir de fazer denúncias, como ocorreu há duas semanas. Numa ligação, a testemunha se identifica e o atendente começa a fazer uma série de perguntas. As principais informações, como a localização do crime, foram passadas, mas o profissional continuou pedindo outras referências até o denunciante desistir da chamada.

Um atendente que deixou o 190 no fim do ano passado disse que o recrutamento de funcionários é falho. Segundo ele, os operadores são treinados durante 15 dias, mas a qualificação é o maior problema:

— Hoje em dia, qualquer pessoa entra. Basta saber assinar o nome. Não tem um processo seletivo rigoroso e, como o salário é baixo, a rotatividade é grande. Então, o cidadão pega uma pessoa totalmente equivocada. Já vi atendente falando “estrupro” e outras coisas bizarras durante as ligações.

O 190 cobre os 21 municípios da Região Metropolitana do estado. O atual modelo começou a ser operado em 2013, no prédio do Centro Integrado de Comando e Controle, na Cidade Nova. Segundo a Secretaria estadual de Segurança, hoje o serviço é feito por 240 profissionais terceirizados, divididos em escalas diárias de seis horas. Com isso, ficam 60 atendentes por turno.

A licitação para operar o serviço foi vencida pela Oi. A secretaria não informou a vigência nem o valor do contrato. No entanto, de acordo com dados do Portal Transparência, o governo tem uma dívida de R$ 4,5 milhões com a companhia, referente a um contrato com o 190 encerrado em 2015. Ou seja, dos R$ 10,7 milhões previstos, apenas R$ 6,2 milhões (58% do total) foram pagos.

Em nota, a Oi informou que já solicitou formalmente ao governo a abertura de uma nova licitação. A companhia disse ainda que o serviço está funcionando normalmente e que, apesar do atraso, mantém a operação do 190 por se tratar de um serviço essencial e de utilidade pública.

Já a Secretaria de Segurança negou que o 190 tenha gravação eletrônica e, segundo o órgão, 93% das ligações são atendidas no primeiro toque. Nas madrugadas, esse percentual sobe para 98,93%. De acordo com o estado, os funcionários passam por treinamentos constantes e reciclagens periódicas e, desde a criação do sistema, o tempo de despacho tem sido reduzido progressivamente. Em 2013, o tempo médio era de 15 minutos, segundo a secretaria. Já em 2015, chegou a oito minutos e, hoje, a média é de quatro minutos para enviar uma equipe da PM ao local.

Barulho e crimes envolvendo mulheres foram as queixas mais registradas no sistema, entre dezembro do ano passado e fevereiro deste ano, com 28.357 e 28.372 chamados, respectivamente. Há uma média de 315 denúncias por dia, de cada uma dessas reclamações.

Para ajudar a Polícia Militar na tarefa de reprimir quem faz barulho excessivo, principalmente de madrugada, a Guarda Municipal promete capacitar seus agentes para esse tipo de ocorrência até outubro. Com base na chamada Lei do Silêncio, aprovada na Câmara de Vereadores e sancionada pelo prefeito Marcelo Crivella no mês passado, os agentes usarão decibelímetros para medir o som. A multa para pessoas físicas que descumprirem as normas será R$ 500. No caso de estabelecimentos, como bares e restaurantes, o valor é R$ 5 mil.

De acordo com o secretário municipal de Ordem Pública, coronel Paulo Cesar Amendola, 51 guardas municipais farão as operações e, inicialmente, 60 decibelímetros estão sendo adquiridos pela prefeitura. Segundo ele, as chamadas das ocorrências serão recebidas por agentes no Centro de Operações Rio, na Cidade Nova, pelo número 153.

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