Início Rio de Janeiro Estudiosos dizem que decoração nas ruas e ensaios na Sapucaí são importantes para atrair turistas no carnaval
Rio de Janeiro

Estudiosos dizem que decoração nas ruas e ensaios na Sapucaí são importantes para atrair turistas no carnaval

RIO - “Em vários dias de festa/A cidade se veste/Com seu traje mais novo/A praça em alegria se engalana/Para receber o nosso povo”. O samba-enredo da Portela de 1977 — de Dedé, Catoni, Jabolô e Waltenir — é registro precioso da tradição festeira carioca. “Festa da aclamação” canta a folia que tomou conta da cidade em fevereiro de 1818, quando Dom João VI foi sagrado rei.

A cenografia teve o toque francês do pintor Jean-Baptiste Debret, do arquiteto Grandjean de Montigny e do escultor Auguste-Marie Taunay, mas poderia ser assinada pelos carnavalescos Renato Lage, Paulo Barros ou Rosa Magalhães. Entre outras alegorias, havia um templo de Minerva, uma estátua do soberano, um Arco do Triunfo e um obelisco de mais de cem palmos de altura, conta Jacqueline Hermann em “O rei da América: notas sobre a aclamação tardia de d. João VI no Brasil”.

Se dois séculos atrás havia interesse político em impressionar o povo, hoje, incentivar a festa é igualmente estratégico por razão econômica. O carnaval traz R$ 3 bilhões à cidade e cria mais de 250 mil postos de trabalho diretos e indiretos, segundo o economista Luiz Carlos Prestes Filho, autor do estudo “Cadeia produtiva da economia do carnaval”.

Para Felipe Ferreira, coordenador do Centro de Referência do Carnaval da Uerj e jurado do Estandarte de Ouro, a cidade deve se vestir melhor para a festa:

— Um exemplo de como o Rio desperdiça o potencial do carnaval é que as ruas não são mais ornamentadas. O que vimos nos últimos anos eram peças de propaganda de patrocinadores. A decoração mobilizava os foliões. Havia concurso para escolher o autor, e o resultado era divulgado com destaque. Grandes carnavalescos foram vencedores, como Fernando Pamplona, Arlindo Rodrigues, Rosa Magalhães e Licia Lacerda. A decoração é fundamental para marcar a cidade como um espaço do carnaval, dando a impressão de que ali se está em outro mundo.

Roupa bonita para a festa não custa a fortuna que se diz. Quem garante é o carnavalesco da Mangueira, Leandro Vieira, que tem autoridade para falar de superação: aos 32 anos, foi campeão logo na estreia no Grupo Especial, em 2016, quando a Estação Primeira vinha de um décimo lugar no carnaval anterior e estava sem vencer desde 2002. Em 2018, ele vai assinar o enredo “Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco”, uma resposta à redução das verbas da prefeitura para as escolas de samba e também um contraponto à ideia de que o brilho do espetáculo depende de orçamento milionário.

— A magia do carnaval é “ressignificar” objetos comuns usados na confecção das fantasias e alegorias de uma maneira que impressione — diz Vieira.

O carnavalesco defende o uso turístico da Cidade do Samba, conforme previsto na inauguração, em 2005. Ele conta que visitantes eventuais, levados informalmente, ficam maravilhados ao ver a montagem dos carros alegóricos. Vieira acha que a ideia não impede que as escolas guardem segredo:

— Não há lugares em outros países em que os visitantes não podem tirar foto?

Leandro Vieira e Felipe Ferreira acompanham Valeria Guimarães, professora da Faculdade de Turismo e Hotelaria da UFF, no bloco dos órfãos dos ensaios técnicos, cancelados sob a alegação de falta de verba. Eles lamentam que o evento, que lotava a Sapucaí em janeiro e fevereiro, tenha sido cancelado, o que, afirmam, provoca perda cultural e afeta o potencial turístico.

— Os ensaios técnicos deveriam voltar com mais planejamento, inserindo o turista, fundamental para a valorização do carnaval, mas sem a lógica de exploração do forasteiro. Falta uma costura melhor entre o turismo e o mundo do samba, aproximando dois universos que são complementares — diz Valeria.

Segundo Ferreira, os blocos são hoje a maior atração do carnaval do Rio. Tentar limitar os desfiles a um “blocódromo”, diz o professor, seria um equívoco:

— Certamente, outros blocos desfilariam fora do lugar determinado. O poder público deve providenciar a infraestrutura, mas ter sensibilidade para não militarizar a festa.

O economista e professor da UFRJ Mauro Osório afirma que o carnaval deve ser vendido como atributo específico do Rio, já que praias outras cidades também têm. Além disso, propõe a oferta de atrações ligadas ao samba fora da temporada carnavalesca. Para ele e Valeria, o Natal na Serra Gaúcha é bom exemplo disso.

— Gramado e Canela trabalham de forma complementar, distribuindo o fluxo turístico e criando um calendário de eventos de outubro a janeiro. O carnaval do Rio poderia abrir com o Dia Nacional do Samba, em 2 de dezembro, com oferta gratuita e organizada de ensaios de escolas e blocos, o Trem do Samba, passando pelo réveillon e indo até a ressaca pós-carnaval. Seria um sucesso — aposta Valeria.

Siga-nos no

Google News
Quer receber todo final de noite um resumo das notícias do dia?