RIO - O episódio envolvendo o juiz Jorge Jansen Counago Novelle e o osteopata Pedro Augusto Guerra, que moram num edifício na Avenida Atlântica, em Copacabana, provocou debate entre especialistas. Há quem acredite que a reação extremada do magistrado, de disparar contra o vizinho durante uma discussão, tenha relação com a onda de violência que o Rio enfrenta, o que estaria deixando os cariocas com os nervos à flor da pele. Outros ligam o comportamento impulsivo a uma característica pessoal.
A psicanalista Ângela Bezerra Villela, membro associado do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro, acredita que o caso seja fruto “da terra sem lei em que estamos vivendo”. Para ela, “há um transbordamento de instintos, uma falta de limite, que, sem sombra de dúvida, têm a ver com a violência que enfrentamos”:
— A violência, hoje, está mais perto de cada cidadão. Estamos vivendo um tempo inigualável de ausência de lei. A intervenção militar, que pretendia resolver esse problema, não o fez. Chegamos a um ponto de alastramento da violência, cuja contenção é muito difícil. Não há diálogo, mas o ódio exacerbado.
Moradora do Leme, a psicanalista Flavia Strauch, da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio, relata que viveu o “terror” na quinta e na sexta-feira passadas, quando traficantes rivais entraram em confronto nos morros Chapéu Mangueira e Babilônia. Ela conta que sua janela tremia com os tiroteios e defende que “nós somos frutos daquilo que vivemos e que, em momentos em que perdemos o controle, não sabemos o que fazer”:
— Por isso, não sou a favor do “estatuto do armamento”. Não é qualquer pessoa que pode ter uma arma. Estamos numa Faixa de Gaza sem reconhecer esta situação. Neste fim de semana, teve tiroteio na Urca, na Rocinha, no Pavão-Pavãozinho. Onde nós vamos parar? Não podemos nos acostumar a isso.
Já o professor de psiquiatria forense da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) Miguel Chalub diz não acreditar que as pessoas estejam mais propensas a ter atitudes extremas no Rio por conta do aumento da insegurança:
— A impulsividade tem a ver com as características de personalidade. Pessoas impulsivas não pensam nas consequências de seus atos antes de agir e, quase sempre, se arrependem logo depois. É uma força interna que elas têm que, em geral, fica contida, mas, eventualmente, sai do controle. Não é porque você está num meio violento que você vai ser violento. Ninguém vai sair matando os outros porque o número de assassinatos aumentou — argumenta.
A antropóloga Yvonne Maggie, doutora em antropologia social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lembra que muitas mortes ocorrem por causa de uma briga no trânsito ou no condomínio e não são planejadas, ocorrem no ímpeto.
— A agressividade entre iguais é uma questão estrutural do brasileiro. Assim como somos cordiais e alegres, podemos também ser muito violentos. Percebo um aumento da agressividade nas redes sociais e no trato do dia a dia. Tenho reparado que as pessoas estão mais sensíveis por nada, mas não há pesquisa que relacione a hipersensibilidade a atos de violência — diz Yvonne.

