RIO — Aquela velha imagem de sambistas deixando as quadras das escolas com o dia já raiando está cada vez mais rara. A batucada que corria solta, atravessando madrugadas, agora tem hora para acabar. E o que tem mudado os ponteiros dos bambas é a violência. Mesmo assim, às vezes as quadras ficam vazias. Na tentativa de evitar a debandada do público, quatro grandes escolas do Grupo Especial (Portela, Mangueira, Unidos da Tijuca e Mocidade) anteciparam os horários de seus ensaios. A Portela, a maior campeã do carnaval carioca, com 22 vitórias, fez ontem a sétima eliminatória para a escolha de seu samba-enredo para o carnaval do ano que vem. Se antes as disputas terminavam de madrugada, agora é praticamente uma matinê, começando às 17h aos domingos.
O presidente da escola, Luis Carlos Magalhães, afirma que a mudança foi feita a pedido dos próprios compositores e diz que o retorno tem sido positivo:
— Esse horário, mais parecido com o da feijoada, é um sucesso. Todo mundo gosta. Os cantores podem fazer shows em outros lugares à noite. E quem vai acordar cedo no dia seguinte também aproveita sem culpa — afirmou Magalhães, ressaltando que tanto a semifinal quanto a final da escolha do samba-enredo vão seguir a tradição: serão realizados nas próximas sextas-feiras, a partir das 22h.
Integrante da Velha Guarda da Portela, Monarco lembra que os ensaios começaram a varar madrugada adentro a partir da década de 70, quando as quadras saíram do alto dos morros e foram para o asfalto, atraindo mais pessoas, inclusive de fora da comunidade. Para ele, a mudança agora é positiva, porque atrai um público ainda maior e não atrapalha a vida de quem precisa acordar cedo.
— Para mim, esse horário mais cedo é melhor. As famílias participam mais, as pessoas saem da praia e já começam a se arrumar para ir ao samba. Todos se divertem e quando chega 23h, meia-noite, no máximo, a quadra está se dispersando. A insegurança está demais, então acho que é uma maneira de salvaguardar vidas. Antigamente, você podia sair da escola de samba a hora que fosse e não era molestado por ninguém. Eu, graças a Deus, nunca passei por nenhuma situação complicada, mas já ouvi relatos de pessoas que foram assaltadas. Acho que a Portela está fazendo bem — opinou.
Dona de uma creche e torcedora fanática da azul e branco, Lilian Santos também aprovou o novo horário. Segundo ela, o maior problema era na volta para casa.
— Dentro da quadra e nas imediações, não acontece nada, não tem perigo. O problema é quando saímos daqui. As pessoas ficam com o coração na mão. Mas, realmente, é uma faca de dois gumes. Quando começa mais tarde, costuma lotar mais — ressaltou.
Até a verde e rosa acertou o relógio com o clima da cidade. Na Mangueira, os eventos aos sábados começam às 20h e não passam da meia-noite. Antes, era justamente nesse horário que a quadra começava a esquentar os tamborins.
— Tem dado muito certo, e o pessoal se sente mais seguro. As pessoas têm gostado, e os turistas estão enchendo a quadra. É bom que todo mundo chega mais cedo em casa e pode aproveitar o domingo na praia — afirmou o presidente da agremiação, Chiquinho da Mangueira.
Morador de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, o mangueirense e professor de geografia Vinícius Nunes, de 23 anos, disse que a mudança do horário facilitou sua volta para casa.
— Para o transporte é fundamental. Antes, terminava às 4h. Para voltar, era complicado, fora o medo. As ruas estão desertas, é inseguro. Agora, saio às 23h40m ou 23h50m e ainda pego o ônibus direto. Dá para aproveitar o domingo, ir à praia, curtir com a família. Quando o samba da Mangueira era de madrugada, eu só chegava em casa às 7h. Acordava tarde e perdia o domingo. Foi bom. Gostei — afirmou.
A Unidos da Tijuca também adotou um formato diferente para as disputas de samba-enredo, numa espécie de happy hour, aos sábados, começando às 18h. Passada essa primeira etapa, os ensaios serão também aos sábados e também mais cedo, a partir das 19h. Para o presidente da escola, Fernando Horta, além de assustados com o alto índice de criminalidade, os fãs de samba têm ficado mais distantes das escolas por outros fatores:
— O problema não é só a violência, mas também a questão financeira. As pessoas estão consumindo muito menos, saindo muito menos, afinal, nem o governo paga a seus próprios funcionários. Com a chegada do horário de verão, vamos esticar mais o samba — explica Horta.
Campeã este ano ao lado da Portela, a Mocidade também fez adaptações. Os ensaios que começavam às 22h de sábado passaram para domingo à tarde, a partir das 15h. Antes de anunciar a mudança oficialmente, a agremiação chegou a fazer um teste no início do mês passado.
— Com o alto índice de assaltos na Avenida Brasil e na região, resolvemos fazer esse teste. O resultado foi um aumento significativo de público. E o mais interessante é que as pessoas ficam até o final, o que não acontecia aos sábados. Todos se sentem mais seguros. Após esse teste, a comunidade como um todo passou a pedir esse formato de domingo à tarde — diz o vice-presidente da Mocidade, Rodrigo Pacheco
Apesar de tirar dos foliões o gostinho de sambar até o amanhecer, o novo ritmo é defendido como inevitável pelo dirigente:
— Temos que ser coerentes com a realidade. É preciso pensar nas pessoas. Preservar o bem maior, ou seja, a vida de cada um.
A antecipação dos horários já vinha sendo adotada por outras agremiações. Na São Clemente, o ensaio ocorre às terças-feiras, às 20h. Já na Vila Isabel os portões são abertos às 19h, sempre aos sábados. O Império Serrano também mantém seus horários mais cedo: quinta-feira às 19h, e, aos domingos, às 18h. Só a final segue madrugada adentro no sábado, a partir das 22h. Em Nilópolis, a Beija-Flor esquenta seus tamborins às quartas-feiras, a partir das 21h. O horário é uma tradição da azul e branca, por se tratar de um dia de semana, mas vai até o amanhecer.
Com a quadra num dos acessos do Complexo do Alemão, a Imperatriz Leopoldinense já se adaptou à rotina de violência há mais tempo. Há três anos, antecipou os horários dos ensaios, sempre aos domingos, a partir das 20h. A festa nunca passa da meia-noite. Para o carnavalesco Cahê Rodrigues, que há dois anos foi vítima de um sequestro, a decisão foi acertada:
— Hoje, a gente vive uma preocupação maior com a segurança no Rio. Como já passei alguns sustos, eu me preocupo muito com a questão do ir e vir. Há dois anos, fui sequestrado próximo à Cidade do Samba. Era meio-dia quando aconteceu, mas fiquei tão traumatizado que até hoje não dirijo à noite. Sempre prefiro me deslocar de Uber ou táxi se o evento for terminar tarde. Por isso, sou a favor de que os horários dos eventos sejam revistos, tanto para quem vai frequentar os ensaios quanto para quem vai trabalhar.
O historiador Luiz Antônio Simas, colunista do GLOBO e especialista em carnaval, não vê problema na mudança. Para ele, é uma forma de as escolas se reinventarem em meio ao recrudescimento da violência:
— Faz parte do jogo. As escolas de samba são dinâmicas. Não vejo como uma tradição sendo quebrada ou discutida. Acho que são as circunstâncias. Às vezes, é muito complicado para as pessoas saírem, seja em virtude de um transporte público inadequado ou da violência, já que algumas escolas estão inseridas em comunidades conflagradas. Estão ousando e acho que o resultado está sendo positivo — comentou.

