RIO — No salão com sóbrios armários de madeira, dentro de um palacete de estilo eclético do começo do século passado, Bel Tesszar está deitado nu. Apoia a cabeça sobre um dos braços, dobra uma perna sobre a outra... Fica quase imóvel e, no silêncio, boceja. À sua volta, diante de seis cavaletes, homens e mulheres o observam atentamente, enquanto reproduzem em telas as formas do corpo do rapaz. É mais uma aula do curso de modelo vivo — oferecido há mais de 40 anos na Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage —, transcorrendo com a mesma naturalidade com a qual a instituição sempre lidou com assuntos como nudez, gênero e diversidade sexual. E que ilustra que, ao propor abrigar a polêmica exposição “Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, a escola vai ao encontro da tradição de um “espaço de emergência, espaço de resistência”, como já afirmava uma de suas publicações de 1978.
Remando contra as forças conservadoras atuais, em março deste ano a EAV convidou, pela primeira vez, uma transgênero, a mineira Naomi Savage, para posar numa aula de modelo vivo, que aconteceu em volta da famosa piscina do Parque Lage, aos pés do Cristo Redentor. Também recentemente, um aluno transgênero apresentou uma performance em que ele desprendia dreads de seu cabelo e os amarrava nos pelos da vagina. Nada alheio, porém, à vanguarda de décadas da escola, fundada em 1975 pelo artista plástico Rubens Gerchman, transgredindo preceitos da ditadura militar.
Naqueles tempos de chumbo, foi o lugar da poesia marginal, cenário de filmes como “Terra em transe", de Glauber Rocha, e “Macunaíma”, de Joaquim Pedro de Andrade, e sede da revista gay “Lampião”. Já nos ares da democracia, em 1993, foi palco de uma montagem de “Hamlet”, obra de Shakespeare adaptada por Zé Celso, que incitou debates com atores despidos diante da plateia. Nudez que, em fotos de 1979, já aparecia quando uma cozinheira do Parque Lage, com seios à mostra, era a modelo das oficinas de desenho.
— Estou no Parque Lage desde 1978. Antes disso, já havia aulas de modelo vivo. E, em todas essas décadas, raramente tivemos problemas — afirma o professor do curso, Gianguido Bonfanti, o mais antigo em atividade na EAV. — A arte grega, assim como a romana, está cheia de nus, feitos a partir de modelos. Nas aulas de modelo vivo, exercitamos o olhar para observarmos a forma, que é a matriz da linguagem visual. E o corpo humano, que é a nossa casa, tem uma forma muito dinâmica — diz ele.
Dilema da vida íntima
Um dos modelos das classes de Gianguido, Bel Tesszar se despe com despojamento diante dos alunos. Mas, apesar de toda espontaneidade, o jovem se identifica com um nome babilônico, em vez do seu verdadeiro, porque mantém em segredo para a família que posa nu. De criação evangélica, ele começou a carreira artística no teatro da igreja. Foi a faculdade de História, diz ele, que o ajudou a “sair da caixa”. Já a estreia como modelo vivo foi num curso do Centro de Arte Maria Teresa Vieira, na Rua da Carioca, onde testou se ficaria à vontade para iniciar uma oficina de teatro nu na Escola de Teatro Martins Pena, no Centro. Logo, perdeu a inibição.
— Mas houve uma experiência, já no Parque Lage, em que uma menininha entrou na sala de aula com a mãe. Na hora, pensei: “Meu Deus, é uma criança”. Ela se sentou num banquinho e começou a desenhar. Quando a vi supertranquila, fiquei menos preocupado. Tudo tem a ver com se entender como ser humano, ser o que você é. Mas se apareço e revelo meu nome, tenho receio de ser excluído do meio da igreja, que ainda frequento — conta.
Ele afirma que, para ser modelo vivo, é essencial ter uma consciência corporal. Característica, diz o ator, comum aos colegas que posam na EAV, mulheres e homens, um deles de quase 80 anos, que praticam atividades como capoeira e ioga. Já o perfil dos amantes de arte que os pintam é variado: de senhoras como Araci Gardel ao jornalista Fernando Pinheiro Neto. Diversidade que também é marcante entre os cerca de 700 alunos dos cursos do Parque Lage. E que, para Ulisses Carrilho, curador da escola, mantém a instituição na vanguarda:
— Quando propomos trazer “Queermuseu” para cá, lidamos com a nossa tradição. Estamos acostumados a tratar de questões ousadas, como uma exposição sobre a Aids, em 1987.
Diretor da escola, Fabio Szwarcwald lembra que muitos dos artistas de “Queermuseu” — retirada de cartaz do Santander Cultural, em Porto Alegre, e que o prefeito Marcelo Crivella rejeitou levar ao Museu de Arte do Rio (MAR) — já passaram pelo Parque Lage, como Adriana Varejão, Alair Gomes e Marcos Chaves.
— Não podíamos simplesmente aceitar e deixar os artistas parecendo os vilões dessa história. Por isso abrimos a escola à exposição, ainda que seja para um grande fórum de discussão sobre o momento atual — diz Fabio.

