RIO - De um lado, as praias de Ipanema e Leblon. Do outro, a Lagoa Rodrigo de Freitas. No meio de um dos cenários mais deslumbrantes da cidade, um Jardim de Alah mais abandonado do que nunca. A área, usada como canteiro de obras da Linha 4 do metrô e que deveria ter sido devolvida revitalizada após a inauguração do trecho entre as estações General Osório e Jardim Ocêanico, é um retrato do descaso com o Rio. Saíram as máquinas e os operários em agosto do ano passado. Mas só a parte mais próxima às ruas Prudente de Morais e Visconde de Pirajá foi recuperada. Nas praças junto à Lagoa e à Cruzada São Sebastião, o paisagismo foi destruído e estruturas ficaram inacabadas. Algumas árvores que sobraram estão morrendo e há entulho espalhado. E, em vez de lazer para crianças e adultos, o lugar foi tomado por moradores de rua que erguem barracos dentro e no entorno dos jardins descuidados.
Com o espaço nesse estado há mais de um ano, a vizinhança cobra respostas do consórcio, do estado (que contratou a obra) e da prefeitura, responsável pela conservação do Jardim de Alah.
— Pegaram a praça inteira, que devolvam do mesmo jeito — esbravejava um morador da Cruzada no fim de semana.
Uma moradora da Avenida Borges de Medeiros engrossava as críticas:
—Há pessoas que invadem a área para usar drogas e fazer sexo.
De fato, não há a menor dificuldade em se acessar as praças deixadas ao deus-dará, mesmo estando cercadas por grades e tapumes. Em vários trechos, a proteção desapareceu ou foi quebrada.
— Não precisa “ladrilhar o sertão”, cobrir tudo de mármore, nada disso. Prometeram deixar o Jardim de Alah como era antes. Basta isso: reconstruírem a área da forma como era originalmente. Era linda — afirma Ilza Carvalho, moradora de Copacabana, que costuma levar seu cachorro para brincar no “parcão” do Jardim de Alah, no único trecho que foi recuperado.
Nesse pedaço, sim, o piso foi refeito, e trepadeiras cobrem de novo os caramanchões no meio da praça. Estátuas como “Proteção”, de François Auguste HippolytePeyrol, voltaram a seu “palco”. Porém, são os frequentadores que limpam e fazem a manutenção. Eles têm até ancinho para limpar fezes de cães. E reclamam que falta recuperar o gramado, tarefa do município.
O problema é até pequeno se comparado ao restante da área de lazer, para os lados da Lagoa. Na praça próxima ao Shopping Leblon e à Cruzada, um caramanchão foi reconstruído, mas deixado ao léu. Onde anos atrás havia balanços, hoje só há vigas de cimento no meio do nada. Foram deixados para trás canos e tubos de ferro, restos de uma calçada de pedras portuguesas e bases para instalação de postes de iluminação. Em dois pontos da Avenida Epitácio Pessoa, as grades que cercam a área sumiram. Já na ponte construída em 2013 para ligar as ruas Humberto de Campos e Redentor (como parte do plano de mobilidade para as interdições do metrô), pedaços do tapume foram arrancados. Restaram vergalhões, com pontas à mostra ao lado da passagem de pedestres.
Domingo passado, enquanto um morador de rua dormia debaixo de arbustos, outro tinha montado uma barraca com lona, tecido e cordas sob a copa de uma árvore. E um terceiro ocupava uma área coberta no acesso da praça às águas do canal que liga o mar à Lagoa.
Reynaldo Lemos, morador de Ipanema, só passa por ali com seu pastor alemão. Ele conta que, à noite, com a iluminação deficiente encoberta por árvores sem poda, o risco de assalto é grande:
— Muita gente fica com medo. É uma pena, porque era um lugar muito bonito.
A praça em frente ao Clube Monte Líbano está com o piso cheio de pedregulhos e restos de estruturas antigas. Um mendigo fez um barraco com caixas de madeira. Outro dorme dentro uma caçamba de lixo no domingo à tarde.
Nem o consórcio do metrô, nem o estado ou a prefeitura assumem a responsabilidade pelo abandono. A Concessionária Rio Barra afirma que espera o estado “para dar prosseguimento às obras da Linha 4 do metrô, incluindo a reurbanização do Jardim de Alah”. Já a Secretaria estadual de Transportes diz que já determinou à concessionária a retomada da urbanização e analisa as “medidas cabíveis” contra o descumprimento do contrato. Também solicitou à Secretaria municipal de Conservação e Meio Ambiente que faça a limpeza até a retomada dos serviços. A prefeitura do Rio informou que poderá acionar judicialmente a concessionária, caso ela não revitalize o espaço.



