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Crivella consultou equipe de marketing antes de anunciar participação em carnaval na Sapucaí

RIO - Depois de entrar para a história do Rio como o primeiro prefeito a não aparecer na Marquês de Sapucaí em seu primeiro ano de mandato desde a inauguração do Sambódromo (1984), Marcelo Crivella decidiu tomar um outro rumo: em 2018, promete colocar o pé na Avenida e não apenas para vistoriar a pista nos dias que antecedem o desfile. A decisão foi tomada na semana passada, depois de o prefeito ter consultado seus assessores mais próximos e a cúpula da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), da qual ele é bispo licenciado. A iniciativa de Crivella faz parte de uma estratégia mais ampla de tentar mudar sua imagem, após um primeiro ano em que governou a cidade colecionando polêmicas. A lista é vasta: passa por aumento de IPTU, escassez de recursos para a saúde e conflitos com a área da cultura — e o carnaval em particular. Decisões como o corte pela metade da subvenção destinada aos desfiles assim como do patrocínio para a passeata gay e a homenagem a Iemanjá viraram enredos de blocos e escolas de samba.

— Vou à Sapucaí, para verificar toda a infraestrutura que a prefeitura tem colocado lá. Estamos investindo R$ 20 milhões. Quero deixar avisado: depois não vão dizer que o Crivella não gosta de carnaval porque ele é crente. Eu irei. Não para sambar. Vou lá para verificar as coisas que estamos trabalhando com muito carinho e muito amor para evitar acidentes e para que o carnaval seja muito bonito — disse o prefeito.

CONSULTA A BISPO PARA TER SINAL VERDE

Na conversa com os assessores, a maioria foi favorável à presença do prefeito na Marquês de Sapucaí, como uma forma de mostrar que ele não está alheio a eventos importantes da cidade. Restava o sinal verde da Universal. O GLOBO apurou que o bispo Renato Cardoso, atual número dois na hierarquia da igreja neopentecostal, também foi consultado pelo prefeito na semana passada. Renato não se opôs por entender que, independentemente de crenças religiosas, aparecer na Passarela do Samba faz parte do ritual de ser prefeito do Rio. Renato vem sendo apontado, desde outubro do ano passado, como sucessor de Edir Macedo, líder e fundador da Universal, de quem é genro.

— Em 2017, ficou a impressão que o prefeito não quis se indispor com seu eleitorado tradicional, formado por evangélicos. Mas essa atitude o afastou de outros eleitores, que só votaram em Crivella para comandar a cidade porque a disputa no segundo turno foi uma eleição polarizada entre as candidaturas dele e de Marcelo Freixo (PSOL). Não dá para afirmar se essa nova estratégia vai dar certo. O fato é que, pelo segundo ano consecutivo, a presença ou não do prefeito na Sapucaí virou um fato político — disse Darlan Campos, especialista em comunicação e marketing político.

Para Márcio Gonçalves, pesquisador e professor de marketing digital do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), Crivella segue uma lógica política bem pensada e perfeitamente compreensível:

— Presente ou ausente, o prefeito ia ser assunto durante os dias do desfile. Se ele não comparecesse novamente, iria passar a imagem de um prefeito omisso com eventos importantes para a cultura carioca. Novamente, a ausência do prefeito seria atribuída a fatores exclusivamente religiosos.

A exemplo do que aconteceu em 2017, Crivella decidiu leiloar um conjunto de cinco camarotes que, em anos anteriores, eram reservados para uso compartilhado entre a prefeitura e o governo do estado. No entanto, tanto a Riotur quanto a própria prefeitura contam com outros camarotes para receber convidados. O prefeito só não deixou claro se irá a todos os dias de desfile. É bem provável que esteja presente na segunda-feira, quando o prefeito de São Paulo, João Doria, é aguardado na Avenida.

Mas é pouco provável que Crivella concorde em participar da cerimônia de entrega das chaves da cidade para o Rei Momo, que marca o início oficial da folia. Segundo pessoas próximas ao prefeito, a resistência se deve à simbologia do ato, que tem em sua origem rituais pagãos e nada castos. Na mitologia grega, Momo era a deusa do sarcasmo e do delírio. O ser mitológico serviu de inspiração para festas promovidas por gregos e romanos regadas a sexo e bebidas, antes da era cristã. Em Roma, a tradição era que a deusa fosse representada por um homem. Após ser coroado rei, o escolhido comandava festas que duravam três dias. Ao fim da comemoração, o rei era sacrificado no altar de Saturno. Inicialmente, os escolhidos eram soldados. Depois, passaram a ser homens obesos, de forma a simbolizar a fartura, as extravagâncias e os excessos.

ENCONTRO COM O REI MOMO SEM DEFINIÇÃO

Em 2017, Crivella desistiu de entregar as chaves ao Rei Momo, que ficou horas esperando no Sambódromo. Nos dias da folia, o prefeito foi visto em outros lugares. A agenda oficial incluiu vistoriar obras na Zona Oeste e assistir a um torneio internacional de tênis na Hípica. O carnaval só entrou na rotina do prefeito quando ele visitou vítimas dos acidentes com carros alegóricos que marcaram os desfiles da Paraíso do Tuiuti e da Unidos da Tijuca. A cerimônia das chaves, realizada desde 1964, ficou a cargo da secretária municipal de Cultura, Nilcemar Nogueira. A família do ex-administrador do Sambódromo José Geraldo de Jesus, o Candonga (já falecido), que é guardiã das chaves, ainda não sabe como será a cerimônia deste ano. A tendência é que ocorra no Terreirão do Samba ou na própria Sapucaí. A entrega da chave nos jardins do Palácio da Cidade (Botafogo), sede social da prefeitura, como aconteceu em alguns anos, está praticamente descartada.

Sérgio Firmino, um dos filhos de Candonga, defende que o prefeito participe do ritual:

— A entrega das chaves é uma tradição na cultura do carnaval. Ela começou no Rio e foi copiada por outras cidades. Como cidadão e folião, eu gostaria que o prefeito fosse à cerimônia. Independentemente de religião, o carnaval é uma festa do povo.

Após o carnaval, o passo seguinte da estratégia de Crivella será investir numa agenda mais propositiva com a divulgação de novos projetos para a cidade. A isso se somaria uma renovação da equipe do primeiro escalão, que será em boa parte trocado até abril, já que muitos integrantes serão candidatos nas eleições de outubro. Nessa tentativa de virar o jogo, o prefeito até já ensaiou a autocrítica. Em janeiro, durante o balanço de um ano de sua gestão, ele admitiu ter falhado em 2017.

— Quero pedir desculpas à população por todos os transtornos que, pela nossa falta de experiência, não fomos capazes de prevenir — disse Crivella, na ocasião.

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