RIO — Giovanna Duarte e Bruna Sinder, de 17 anos, são melhores amigas e estudam na mesma turma do 3º ano do ensino médio do Colégio Alfa Cem, em Jacarepaguá. Mas as duas se preparam para uma separação iminente. Se tudo der certo, Giovanna, no ano que vem, estará entre os 77 mil moradores da pacata Viçosa, em Minas Gerais, ou entre os 2,3 milhões de Belo Horizonte. Bruna poderá estar entre os arranha-céus da Avenida Paulista, em São Paulo. Destinos diferentes para um desejo em comum: de uma só vez, entrar na universidade e escapar da crise financeira do Rio, que vem minando oportunidades profissionais, provocando uma explosão da violência urbana e inviabilizando o funcionamento normal de universidades estaduais, em especial a Uerj.
Giovanna pretende cursar nutrição na Universidade Federal de Viçosa ou na Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Bruna sonha em entrar no curso de engenharia de produção da Universidade do Estado de São Paulo (USP). Como as duas amigas, mais da metade da turma delas no 3º ano do ensino médio tem como primeira opção no vestibular uma universidade pública fora do Estado do Rio.
Um possível termômetro desse desejo cada vez mais presente em salas de aula de cursinhos e escolas privadas é o aumento de matrículas de estudantes fluminenses em universidades de outros estados que adotam o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) como forma de ingresso. No primeiro semestre de 2014, apenas 884 se matricularam em instituições públicas fora do Rio. Já em 2016, o número de matrículas pulou para 1.432 — um aumento de 61% em dois anos. Já o número de estudantes de outros lugares matriculados no Estado do Rio está em queda: em 2014 eram 1.664; em 2016, 1.165 (menos 30%). E muitas universidades estaduais procuradas, como a USP e a Unicamp, não admitem alunos pelo sistema.
Giovanna, que mora no Itanhangá, cita os motivos para deixar a cidade: a violência e o trauma de um assalto que sofreu, sozinha, no começo do ano, além do custo de vida elevado e o trânsito de mais de uma hora que enfrentaria para chegar à Faculdade de Nutrição da UFRJ, na Ilha do Fundão. Apesar de querer “sair da aba dos pais”, que apoiam a decisão, contaria com o suporte, sempre que necessário, de parentes que vivem em Itaúna, no interior de Minas.
— Aqui no Rio, é tudo muito corrido. Quando vou para Minas, ainda que seja para Belo Horizonte, me sinto em outra realidade. Não tem aquela correria toda. Eu me sinto mais segura e menos tensa. O Rio é uma cidade maravilhosa, mas não está dando para viver aqui — explica.
Apesar de querer viver em São Paulo, um centro urbano maior que o Rio, Bruna também diz que está fugindo da violência. Moradora do Pechincha, é fascinada pela ideia de chegar rapidamente a qualquer lugar usando metrô, ainda que lotado. Só até o ponto de ônibus mais próximo da casa da mãe, ela caminha 15 minutos. Com sorte, levaria uma hora no ônibus até o campus da UFRJ, no Fundão. Para a jovem, São Paulo também oferece mais oportunidades de emprego e estágio.
— Temos a impressão de que o ensino no Rio está tão precário e sucateado que fico com medo de entrar em uma universidade e não ter aulas. A Uerj é um excelente centro de ensino, mas eu entraria lá sem a certeza de que vou me formar. Os outros estados passam mais segurança — acrescenta Bruna.
Hoje Bruna vive cercada pela família: no mesmo aparatamento moram a mãe, que tem uma empresa de bolos, o irmão, a avó, a tia, sua madrinha e o filho dela. Ela pretende se manter em São Paulo com economias dos pais, já que estuda com bolsa integral:
— São Paulo é perto. Se apertar a saudade, consigo voltar para um fim de semana.
Segundo professores e coordenadores, o fenômeno ganhou força conforme a crise do estado se aprofundava. Vicente Delorme, diretor de ensino do Colégio PH, afirma que a impressão é que o número de interessados dobrou. Diante da demanda dos alunos, a instituição realiza dois simulados por ano que reproduzem o modelo de prova da Fuvest (para a USP) — que cobra assuntos específicos, como História de São Paulo. O primeiro deles, no mês passado, foi feito por 400 alunos.
— Estou desde 1999 no PH. Esse interesse era muito pontual antigamente; agora, não. A gente tem algumas pessoas interessadas na Universidade de Brasília, mas o principal é o interesse pela Fuvest e pela Unicamp. A UFRJ tem alguns problemas de infraestrutura e segurança, e isso é algo que, em São Paulo, não acontece tanto. O estado está em um momento mais organizado que o Rio.
Já Danielle Alves, superintendente do Alfa Cem, está no colégio desde 2009 e lembra que o desejo de estudar em outro estado era raro. Hoje, as próprias famílias estimulam a mudança:
— Antes o eixo era São Paulo e Rio, e agora eles estão pensando em outras possibilidades, como Campinas e Rio Grande do Sul.
Aluna do Pensi, Ana Carolina Moares, de 17 anos, quer justamente escapar dos grandes centros. Seu sonho é cursar medicina na USP de Ribeirão Preto:
— Lá tem a melhor infraestrutura, e muita pesquisa na área de medicina. Quando me formar, quero entrar para a (ONG) Médicos Sem Fronteiras.
Apesar da vontade de atuar em uma guerra declarada, Ana tem medo da violência diária no Rio. A insegurança nas vias expressas e os sequestros e arrastões comuns na Ilha do Fundão foram alguns motivos para a adolescente, moradora de Cascadura, riscar da lista também a UFRJ.
A mãe de Ana, a advogada Jurema Moraes, diz que a menina repete desde os 9 anos que quer sair da casa dos pais para fazer faculdade. Mas não vai ser nada fácil, ela admite, se despedir da caçula de quatro irmãos — apesar de já ter visto um filho de 15 anos sair de casa ao ser aprovado no Colégio Naval. Para avaliar as possíveis dificuldades que a filha teria, Jurema ligou até para a prefeitura do campus da USP em Ribeirão, que costuma fornecer essas mesmas informações a dezenas de pais de alunos “forasteiros” preocupados.
— Vai ser difícil ficar longe, as despesas são muito grandes. Mas, se ela não conseguir dessa vez, daremos apoio para que ela tente até passar para USP — diz Jurema, que procura manter os pés no chão. — Duas da manhã, estou brigando com ela para parar de estudar e ir dormir. Ela sabe que o caminho que escolheu é um dos mais difíceis.
Victor Perim, de 19 anos, está acostumado com a distância da família: mora com sua madrinha no Rio, onde se prepara, no PH, para a terceira tentativa no vestibular de medicina. Sua mãe se divide entre Rio e Espírito Santo por causa do trabalho. Atrás do sonho de estudar medicina em São Paulo — pode ser na USP, na Unicamp, na Unifesp ou na Unesp — vai ter que se acostumar com a ideia de abandonar a praia, o futevôlei, que joga nos finais de semana, quando consegue uma pausa nos estudos, e a informalidade de andar de chinelos em qualquer lugar.
— A vida em São Paulo é um pouco mais barata. Aqui no Rio vem sendo bastante caro viver. E a insegurança afetou minha decisão também — conta ele.
Para Lilli Valle, de 21 anos, a mudança de estado foi inesperada. O curso que queria era o de oceanografia, que, no Rio, só existe na Uerj. No meio do ano passado, quando ainda se preparava para a prova em um pré-vestibular em Niterói, viu que tinha sido aprovada para o 2º semestre na Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Após conversar com ex-alunos de oceanografia da Uerj, e ouvir comentários pouco otimistas sobre a situação da universidade, decidiu fazer as malas e partir.
O plano inicial da jovem era esperar o pior da crise passar e tentar a transferência para a Uerj no meio do curso. Mas essa não é mais uma certeza após um ano no curso, apesar de Lilli ter sofrido o que chama de “uma adaptação complicada”:
— O clima lá é bem de família. O curso é integral, todo mundo tem uma convivência grande e, querendo ou não, isso acaba mitigando a falta de pais e amigos — conta ela. — A adaptação é meio braba, porque pagar as contas e não saber muito bem em quem confiar é complexo.
Para a professora do Departamento de Educação da Uerj Ana Karina Brenner, que desenvolve estudos na área da juventude, o desejo de deixar o estado natal associado à crise, apesar de representar uma tendência positiva de mobilidade de estudantes, é pouco inclusivo, pois só jovens de classe média acabam tendo a oportunidade de sustento longe dos pais:
— A característica dos jovens nos grandes centros do Brasil é ficar na casa da família, ao contrário de outros países.



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