WASHINGTON — Autor de diversos livros sobre drogas — alguns deles embasaram filmes e séries de TV, como "Narcos"—, Ron Chepesiuk afirma que a pobreza e a desigualdade tornam a situação do Rio no combate às drogas mais complexa que a virada de Miami nos anos 1980, que retratou em seus livros "The war on drugs" e "Gangster of Miami". Ele acredita que é preciso pensar em oportunidades para os jovens pobres. E defende um plano global, algo como "um Plano Marshall para os Andes, por causa das drogas".
Miami deixou de ser uma porta de entrada das drogas devido ao forte combate federal. Agora, grande parte das drogas chega pelo México. Miami também mudou depois que os cartéis colombianos adotaram novas estratégias, quando viram que ser tão grandes não era uma boa ideia, pois os Estados Unidos reagiram de forma mais fácil. Os exemplos de Escobar e Cali são muito claros. Eles preferiram atuar com pequenos cartéis. Em 1982, com Reagan, alguns países da região estavam envolvidos com o tráfico, mas já no fim da década todos os países latino americanos tinham problemas com drogas.
Qual foi a importância da política de Ronald Reagan para a reação de Miami?
Ele começava a pensar na reeleição (em 1984), precisava de uma grande causa, para unir o país, e escolheu o combate às drogas. Dedicou 70% da verba de combate às drogas a desmantelar a cadeia de fornecimento, mas foi preciso repensar o sistema. Você vê estes problemas agora no Brasil: violência, famílias desmanteladas, desrespeito à autoridade, Judiciário corrompido, prisões superlotadas que servem como escolas do crime.
Que exemplo Miami pode dar ao Rio?
Parte foi retratada na série Miami Vice: a polícia começou a lutar por territórios em Miami. No início, isso gerou mais violência, a cidade teve que alugar caminhões refrigerados para dar conta de tantos corpos, mas o território foi conquistado. O Brasil está se consolidando como o maior consumidor de cocaína do mundo. Há uma diferença muito grande: a pobreza e a desigualdade. Muitos garotos se sujeitam ao mundo das drogas para ganhar US$ 10, US$ 20 dólares por dia. E eles usam viciados em crack que, para manter o vício, se sujeitam a atuar para o tráfico. É preciso pensar também nessas pessoas para evitar o que ocorre nas Filipinas, onde o governo incentiva esquadrões da morte.
Que tipo de abordagem seria mais indicada no Brasil?
Vocês destinam centenas de milhões de dólares à guerra contra as drogas, mas esquecem os próximos passos. Apenas prender os criminosos não resolve, pois as cadeias se tornam escolas do crime. Sem programas para os jovens que precisam do tráfico, isso será um problema sem solução. As pessoas precisam de oportunidades para sair do crime. As drogas continuam sendo um grande problema nos EUA. Há violência, mas não nos níveis anteriores. Nos EUA, o problema agora é com drogas de remédios, drogas legais. As farmácias substituíram o espaço do traficante.
E como vê a legalização da maconha?
Ess planta nunca deveria ter sido ilegal. São coisas diferentes. Maconha tem efeitos médicos provados, minha mulher enfrentou um câncer e a maconha a ajudou a ter menos dor. Mas temo que, com o governo Trump, voltemos aos "anos de escuridão", recrudescendo de forma desnecessária a guerra às drogas, por causa da maconha, favorecendo o surgimento de gangues. Temos que ter em mente: onde houver demanda, haverá oferta. Historicamente, a América Latina paga pelo problema de drogas nos Estados Unidos. O mundo desenvolvido consome, deixando os reais problemas para o Terceiro Mundo.
E qual o futuro?
Os problemas não estão apenas no Rio ou no Brasil. Colômbia, México e Peru são fornecedores. Precisamos de uma abordagem global sobre drogas, temos que tentar algo novo. E se sugeríssemos algo fantástico, um Plano Marshall para os Andes, por causa das drogas? Quando comecei a estudar este problema, em meados dos anos 90, a guerra contra as drogas consumia US$ 12 bilhões por ano. Não sei quanto consome hoje, mas, provavelmente, muito mais. O que poderia ser feito com esse dinheiro com uma nova abordagem, de fato?




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