RIO - Por 24 anos, um sobrado no Baixo Gávea serviu de palco para a cena cultural independente do Rio. Há pouco mais de um ano, a Casa da Gávea fechou, deixando um vazio na Praça Santos Dumont. Agora, mesmo em meio à crise, o endereço privilegiado será reaberto, com um pé nas artes, mas ligado a uma proposta bem diferente. Na próxima quinta-feira, será inaugurado ali o Dumont Arte Bar, cuja ideia está descrita no nome: a de um bar com drinques e comidinhas onde haverá lugar para shows, exposições, performances e esquetes. Tudo num clima bem intimista.
O Dumont promete preservar um pouco dos ares da Casa da Gávea. O imóvel, tombado pelo Patrimônio Histórico e Cultural da cidade, continuará contando com a varanda que dá vista para o burburinho da praça e com a escada de entrada que traz em seus degraus a letra da música “Há um grito parado no ar”, de Toquinho e Guarnieri. Só que os antigos frequentadores encontrarão um ambiente renovado. Foram três meses de obras, e o sobrado não só ganhou um bar, como também um mezanino. Um projeto de acústica foi feito para o local, de forma que o barulho não atrapalhe a vizinhança. A capacidade do bar será de 150 pessoas.
— Ficou o palco, mas tirei a arquibancada, que agora é um mezanino. Comprei 80 cadeiras de teatro, que poderão ser armadas e desarmadas, fazendo dali um espaço multiuso — explica Flávio Moreno, um dos sócios da casa, dizendo que vai abrir lugar também para as artes plásticas. — Pensei: “como eu faço para divulgar uma arte mais acessível?” A resposta é trazer artistas novos para expor e, ao mesmo tempo, vender as peças. Teremos um cardápio de obras de arte. O cliente pode escolher, pagar no caixa e levar para casa.
O primeiro a ter uma mostra por lá será o artista gráfico Nicolau Mello, autor de murais na área da Rodoviária Novo Rio e que vai expor na nova casa gravuras e telas. No dia 14, a inauguração será com show do cantor Claudio Lins, e terá participação da percussionista Lan Lan, em noite para convidados. No dia seguinte, se apresenta a Banda Zunido, que tem o ator Dudu Azevedo como baterista. A entrada custará R$ 40.
Empresário da noite, sócio também da champanheria Jazz In'Lounge, na Gamboa, e da casa de eventos Maison Leffié, na Rua da Carioca (no lugar do antigo Cine Ideal), Flávio não revela o investimento no Dumont. Ele, que é um dos fundadores do bloco A Rocha, da Gávea, conta que teve o estalo de abrir algo no sobrado do Baixo Gávea durante os embalos do carnaval.
— Eu estava com o bloco quando vi a a placa “aluga-se”. Mesmo achando que este ano seria difícil, liguei e fui lá. Continuei matutando e decidi fazer uma casa sustentável, com projeto de energia solar e de aproveitamento da água da chuva. Um lugar que unisse cultura e meio ambiente. Não vamos conseguir tocar essas ideias agora, mas também não é nada que não possa ser feito depois — diz.
A programação cultural terá a curadoria tanto de Nicolau Mello quanto da produtora Clara Araújo, com a colaboração da cantora Juliana Betti, que é filha do ator Paulo Betti — um dos fundadores e administradores da Casa da Gávea. Juliana, que mantinha um projeto com bandas às quartas-feiras no antigo espaço, pretende levar ao palco nomes que começam a despontar na música.
— Quero chamar pessoas que não têm plateia para lugares grandes, como o Circo Voador, e que estão começando a carreira. Serão apresentações mais acústicas, para não mais que 50 pessoas — conta Juliana, que planeja montar uma exposição de fotos sobre a Casa da Gávea, que fez história no meio teatral carioca. — A Casa da Gávea foi o primeiro centro cultural a fazer leituras de textos de teatro abertas para o público. Testava-se para o bem ou para o mal a peça. Havia depois debates com atores. E muita gente começou fazendo cursos de teatro lá.
Embora o lugar agora não seja mais exatamente um teatro, estão nos planos promover círculos de palestras sobre literatura e também leituras de peças de teatro, mantendo o espírito de aproximar artistas do público.
A Casa da Gávea, aberta no lugar de uma clínica geriátrica, foi despejada em junho do ano passado por decisão da Justiça. O contrato de aluguel havia vencido um ano antes, sendo que a administração do centro cultural não conseguiu renová-lo. Na época, o prefeito Eduardo Paes tombou o imóvel em definitivo (havia um tombamento provisório de 2003), o que não impediu a ação. O empresário Antônio Rodrigues, da rede Belmonte, chegou a firmar uma parceria, pagando aluguéis e salários, mas o acordo terminou em maio de 2016. A situação já não era boa anos antes. Em 2014, Paulo Betti já tinha anunciado o fim da casa por conta da “especulação imobiliária”, que teria tornado inviável qualquer negociação de aluguel, e da falta de patrocinadores.
Morador da Gávea, Claudio Lins, que é irmão de um dos sócios, João Lins (ambos filhos de Ivan Lins), conta que voltará ao palco onde já se apresentou no passado:
— A Casa da Gávea era mais teatro, mas o bar também vai acolher expressões artísticas. Fico feliz de o espaço continuar sendo, de alguma maneira, um ponto cultural.



