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Apreensão de crack faz moradores da Rocinha temerem venda da droga na comunidade

RIO - A fama de ser uma das poucas favelas a proibir a entrada do crack já não existe mais. A Rocinha, que sempre resistiu à mistura de restos de cocaína e impurezas, com poder de despedaçar vidas, virou mais um ponto de venda das pedras amareladas. No dia 18 de setembro deste ano, o Comando de Operações Especiais (COE) da Polícia Militar apreendeu no morro de São Conrado, entre tabletes de maconha, 120 embalagens de crack. O sinal de alerta foi aceso. A descoberta aconteceu no mesmo mês em que teve início uma disputa entre dois chefões do tráfico. De um lado, Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem — que cumpre pena no presídio federal de Porto Velho (RO) — e, do outro, Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, preso na última quarta-feira. Os dois eram da mesma facção, Amigos do Amigos, mas, com a ruptura, Rogério 157 caiu nos braços do Comando Vermelho, conhecido por comercializar crack em algumas comunidades. O maior temor dos moradores, agora, é o surgimento de uma grande cracolândia num morro crucial para o crime organizado, que vende R$ 10 milhões em drogas por mês no coração da Zona Sul.

Nos últimos anos, a Rocinha sempre esteve no centro da cobiça de quadrilhas rivais e chegou a ser dividida em dois territórios, um na parte alta e o outro, na baixa. Bandos exploravam seus domínios e, vez por outra, se enfrentavam. Mas, apesar da turbulência histórica, nunca se cogitou vender as pedras, consideradas malditas. Para os moradores, o crack é um perigo porque leva para as bocas de fumo e para o entorno delas dependentes químicos devastados. Para os bandidos, ele pode “quebrar a firma” de um dos mais movimentados ponto de varejo de drogas na Zona Sul, frequentado por uma clientela de alto poder aquisitivo. Uma cracolândia pode espantar a freguesia, não só externa, como a de usuários domésticos. A Rocinha, segundo o último censo do IBGE, de 2010, tem 69.161 habitantes. Sabe-se que esse número, na verdade, pode chegar a mais de cem mil.

Nascido e criado na Rocinha, Rafael Silva Matoso de Araújo, de 40 anos, administrador de um blog de notícias na comunidade, diz que os moradores já estão mobilizados para evitar a proliferação do crack.

— A Rocinha é sensível a esta situação. Nunca vai aceitar a venda de crack. Não tem traficante nem policial para mandar na vontade dos moradores — defende Araújo, que pretende lançar, no dia 1º de janeiro, o aplicativo Favelas para criar uma rede integrada de todas as comunidades do Rio.

Ainda preocupados com a instabilidade na região, que se encontra na iminência de uma nova guerra depois da prisão de Rogério 157, poucos moradores se arriscam a falar abertamente sobre o comércio do crack na localidade.

— Imagine se começar a ter cracudo por aqui? Não haverá mais sossego. Todos sabem que, além de deixar o local com um aspecto horrível, ainda ocorrem roubos e prostituição. Não vamos deixar que isso aconteça, mas estou assustada — disse uma moradora, que pediu para não ser identificada.

O delegado titular da 11ª DP (Rocinha), Antônio Ricardo Lima Nunes, viu com surpresa o tráfico ter optado pelo comércio da droga.

— Interroguei Alberto Ribeiro Sant’anna, o Cachorrão, (braço-direito de Rogério 157, preso em novembro deste ano) e o próprio Rogério 157, e perguntei se eles venderiam crack na Rocinha. Eles falaram que não. No entanto, a conclusão do laudo do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) de que as pedras apreendidas são realmente crack nos deixa bastante preocupados. Ainda estamos investigando. Isso é realmente novo para nós — disse o delegado.

ÚNICO CASO REGISTRADO FOI EM 2014

Antecessor de Antônio Ricardo, o delegado Gabriel Ferrando, atual titular da 12ª DP (Copacabana), que prendeu Rogério 157 em uma casa Favela do Arará, em Benfica, numa ação conjunta com as delegacias da Rocinha e de Ipanema (13ª DP), lembra que, até este ano, o único registro de apreensão de crack no morro foi feito em 2014. Na investigação, constatou-se que sete quilos de crack encontrados num veículo na Estrada da Gávea, uma das vias de acesso à comunidade, tinham como destino uma outra favela. O fornecedor estava apenas de passagem, fazendo entregas de outras drogas.

— Na época, os traficantes da Rocinha realmente não comercializavam o crack. Era uma opção da facção — disse Ferrando.

Apesar da apreensão feita pelo COE, o comandante da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha, major Daniel da Cunha Neves, informou que suas equipes ainda não encontraram o entorpecente, mas reforça a preocupação dos moradores:

— Não apreendemos crack por aqui, mas temos certeza de que a população não aceitará um ponto de consumo da droga na Rocinha. Estamos aqui para apoiá-la — disse o oficial da PM.

A Secretaria municipal de Assistência Social e Direitos Humanos já mapeou um ponto de uso de drogas perto da comunidade, e informou que já tem uma ação programada para a região. A equipe do GLOBO encontrou moradores de rua em frente à Rocinha que não admitiram consumir crack, mas disseram saber que a droga já vem sendo usada na área.

— Não sei se, por isso, os moradores da Rocinha nos expulsaram de lá — contou um deles.

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