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Casa, comida e vidas mudadas

Tudo começou com um vídeo no Facebook. Sete da noite, trabalho acabando, clico em um post do Rio Invisível, organização que dá visibilidade a pessoas em situação de rua. Uma mulher olha para a câmera — olha nos meus olhos — e pergunta: “Comida? Tem muita. Mas será que só alimentar quem está na rua é suficiente? Será que essas pessoas, nós, não merecemos um pouco mais do que isso?”. Foi um soco no peito. A lucidez dela, a clareza sobre sua situação. Era 11 de julho de 2017, e nem eu nem ela podíamos imaginar a revolução que estava começando ali. Uma aventura que mudou a minha vida, virou piloto de um modelo de acolhimento da população em situação de rua no Brasil, e mais do que tudo: mudou a vida da Vera.

No vídeo seguinte, ela falou sobre seu amor por cultura e sobre a demissão sem receber nem o salário do mês, o processo trabalhista parado na Justiça. “Nisso, eu posso ajudar!”, pensei. Eu sou poeta, montadora de cinema, mas levei fé que algum amigo advogado iria entrar nessa comigo. Nesse mesmo dia, Marcella Cruz, do Veirano Advogados, comentou o post e ofereceu seus serviços.

Conexão rápida

Quinze dias depois, nos encontramos. Conversamos sobre os problemas e também sobre o coral em que ela canta na Catedral Metropolitana e a terapia que faz no CAPS AD Centra-Rio. O que eu tinha sentido no vídeo se confirmou, a nossa conexão rápida, a sintonia na forma de pensar. Logo em seguida conheci o Projeto RUAS, que atua com pessoas em situação de rua oferecendo, mais do que só comida, dinâmicas de saúde, cultura, bem-estar. No site deles, li sobre Housing First, uma metodologia criada por Sam Tsemberis, que nos EUA é política pública desde 2009. A ideia é oferecer primeiro a casa, invertendo a ordem usual de assistência a essa população. O RUAS está trazendo o HF para o Brasil, uma iniciativa tão relevante que rendeu a Murillo Sabino, seu cofundador, um convite para uma reunião com Barack Obama em São Paulo. Era melhor do que eu tinha imaginado. Mais do que só um teto: consultas com psicólogos, alfabetização financeira, atividades de integração, música e esportes. O plano do RUAS era aproveitar a mobilização de indivíduos como eu, para levantar recursos e testar o HF no país. E foi assim que nasceu nosso financiamento coletivo. Eu, artista independente, que nunca fiz crowdfunding e pago por meus livros e espetáculos com meus recursos, senti que isso era diferente, que ainda que eu pudesse bancar sozinha os custos, essa história precisava da energia coletiva e do afeto de uma rede para fazer sentido.

Foi a coisa mais insana e ousada que eu já inventei: a responsabilidade de tentar mudar a vida de alguém. Logo eu, que nunca fiz trabalho voluntário e não sabia nada sobre o tema. Tanta expectativa e a possibilidade de que não desse certo, e o que isso poderia fazer com a cabeça da Vera, com a vida dela, com a minha? Sei lá o que me deu. Eu mirei no SIM e fui. Breno Gouvea, coordenador do Habitação Primeiro, o modelo de HF do RUAS, foi meu parceiro. Bolamos um projeto para captar recursos para um ano de aluguel, contas, comida, transporte.

Crowdfunding no ar, eu e Vera juntas em carne e osso. Fomos ao teatro, fomos jantar; junto com os voluntários do RUAS reunimos documentos para seu pedido de bolsa de estudos no Santo Inácio. Eu estava em cartaz com um espetáculo de poesia em que 15% da renda ia para a campanha. Vera foi a todas as noites. Pouca gente na plateia segurava as lágrimas quando ela falava no final. Foram dois meses de campanha. Parecia impossível. Não foi. Batemos todas as metas, R$ 22.110. 137 doadores. Minha rede de amigos, as redes deles, uma teia generosa mostrando o que de melhor a internet tem a oferecer.

Vera foi a companheira de jornada mais parceira que eu poderia ter tido. Rimos juntas, dividimos angústias e conquistas, acertamos e erramos, nos abraçamos muito, tivemos conversas difíceis e sorrimos pra chuchu. Chorar, só na tarde em que finalmente alugamos sua casinha e fomos buscar na rua quase tudo o que ela tinha, um saco plástico gigante guardado embaixo de uma marquise no Centro da cidade.

“Uma casa para Vera” foi o primeiro Housing First completo da América Latina, piloto de um formato em que pessoas físicas fazem parceria com o RUAS, enquanto o governo não se mobiliza e torna isso política pública, como é na França, na Espanha e em outros países. A ideia do projeto é montar diversas iniciativas como essa, ganhando escala até chamar a atenção do poder público brasileiro.

No último vídeo daquela série, a Vera dizia: “Não esqueçam que todos nós aqui somos seres humanos, que nem vocês, só que numa situação adversa. Então seus governantes, ó: eu tô de olho em vocês, eu não vou desistir.” Ela não desistiu mesmo, nem eu, nem as pessoas que colaboraram com a campanha. É dezembro de 2017, tenho 39 anos, a Vera tem 49, e essa noite nós duas dormiremos sob tetos confortáveis com nossos corações aconchegados graças a essa rede de empatia e ação. A vida da Vera mudou, a minha também. Mudar uma vida é mudar o mundo. Dar é receber. Experimentem.

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