RIO — Praia de Ipanema, a um quarteirão do Hotel Fasano, por volta das 7h20m de quinta-feira. Uma moradora de rua está deitada dentro da cabana improvisada na areia com restos de persianas. Do lado de fora, há uma cadeira velha sem encosto e uma vassoura com cabo quebrado. Impaciente, um barraqueiro observa a “instalação”, erguida onde ele pretendia montar sua tenda. Tenta convencer a sem-teto a sair dali, mas ela se faz de rogada, responde que a praia é pública e senta-se para folhear um livro. Os dois começam a discutir. Irritado, o camelô, num rompante, derruba a cabana. A moradora de rua apenas se levanta e se dirige a um banco no calçadão, onde volta a ler, de pernas cruzadas.
A cena é de um Rio que, às vésperas de mais um verão, aproxima-se da estação que é a sua cara com problemas que parecem insolúveis, inclusive em sua orla de fama mundial. À beira-mar, a desordem urbana, a falta de conservação de equipamentos públicos, o descuido com o meio ambiente e o subemprego continuam sendo parte da paisagem. A população de rua fez morada não só nas areias de Ipanema, mas também nas de Copacabana, do Leme e do Arpoador, numa cidade com uma rede de assistência que não dá conta do tamanho e da complexidade do flagelo social. Na semana passada, só não foram vistas pessoas ao relento na Praia do Leblon, o que não quer dizer que o problema, que é sazonal, não exista por lá.
Na altura da Rua Farme de Amoedo, em Ipanema, logo que nasce o sol, a maioria dos sem-teto desfaz suas malocas. Quinta-feira, às 6h40m, três deles levantavam de um cercadinho feito de papelão, perto do calçadão. Em direção ao Posto 9, um senhor preparava o café da manhã num pequeno fogareiro e, depois, cobria o lugar onde dormiu com areia. Mais perto do mar, um homem estava deitado, enrolado num cobertor. E, em direção ao Posto 8, um grupo — incluindo dois cachorros — saía de uma cabana feita com lona e guarda-sóis, erguida entre os postes de uma trave de futebol. Um dos “moradores” acorda e vai direto trabalhar numa das barracas da praia. Dentro do Parque Garota de Ipanema, no Arpoador, há até um sofá no abrigo em que se transformou a gruta com a imagem de Santa Sara, protetora dos ciganos.
— Fazem este lugar de hospedaria, com cozinha e banheiro. Fica um mau cheiro horrível. É tamanho o abandono que os frequentadores evitam usar a área de lazer — afirma o barraqueiro Jeziel Cruz, que há 36 anos tem seu ponto no Arpoador.
Em Copacabana, ao longo de todo o dia, as sombras dos coqueiros e amendoeiras também servem de dormitórios. Um dos moradores de rua, além de colchão, tinha dois cachorros, carrinho de supermercado e isopores, perto do Posto 4. Já na Praia Vermelha, na Urca, havia uma barraca de camping na areia. E, no Arpoador, sacos de areia que servem de escada para o calçadão foram transformados em uma das “paredes” de um barraco. A outra foi feita com um contêiner da Comlurb.
Por falar nessas lixeiras, ao longo de toda a orla de Ipanema e do Arpoador é raro encontrar uma delas em bom estado. A maioria está sem tampa e sem rodas. Mas não são o único símbolo do abandono. O deque entre o calçadão e a areia, na altura da Rua Gomes Carneiro, em Ipanema, tem parte da madeira quebrada, além de estrutura de ferro aparente. No Arpoador, uma rampa de acesso à praia está interditada — o que não impediu que, às 7h40m de quinta-feira, um homem invadisse a área, com uma cerveja na mão, para tirar uma foto.
Na Praia da Reserva, na Barra, parte das estacas de madeira que protegem o que restou da vegetação de restinga caiu, e há quiosques fechados. Situação que não chega perto, no entanto, da encontrada em São Conrado. No canto esquerdo da praia, próximo ao costão da Avenida Niemeyer, são dois níveis de calçadão: um mais baixo, próximo ao mar, e outro mais alto, junto às pistas, com uma laje de concreto e areia entre eles. Nos últimos anos, ressacas sucessivas destruíram o trecho perto do mar — uma delas em abril de 2016, no mesmo dia em que as ondas derrubaram parte da Ciclovia Tim Maia, interditada até hoje. Os banhistas contam que já houve várias obras no local. Restos dessas intervenções, como uma grande estrutura de cimento, ficaram pelo caminho. Com o deslocamento de areia nas ressacas mais recentes, abriu-se um buraco entre os dois níveis de calçadão.
— De tanto mexerem no fundo desse trecho da praia, as ondas aqui estão mudando violentamente, numa área usada principalmente pelos moradores da Rocinha. Parece que as obras nunca tiveram um estudo oceanográfico, porque se repara tudo, e os estragos voltam a acontecer. Sem falar que, nesse mesmo lugar, há um ponto de lançamento de esgoto — reclama Julio Bierrenbach, da Associação de Surf da Rocinha.
A Secretaria municipal de Conservação e Meio Ambiente promete solucionar, pelo menos, parte desses problemas. Segundo a pasta, esta semana será programada a demolição da estrutura de cimento sem função na areia. Os escombros, diz a prefeitura, serão utilizados para nivelar o calçadão e acabar com o buraco existente. Também será feita uma recomposição do piso do calçadão, além da substituição do gradil enferrujado no local.
Para o outro canto da praia, no entanto, não há previsão de melhorias. Perto da área de pouso dos voos de asa-delta, o esgoto brota próximo a uma caixa de concreto e forma uma espécie de lagoa na areia. Quando ela transborda, uma língua de água podre corre para o mar. Nem a Cedae nem qualquer outro órgão se responsabilizam pela imundície.
— É inacreditável que um lugar tão bonito esteja assim. O máximo que fazem é cobrir o esgoto com areia. Mas ele surge de novo — conta o bodyboarder Emanuel Mezzavilla.
Em Ipanema, na semana passada, funcionários da prefeitura consertavam os buracos no calçadão denunciados pelo GLOBO em novembro. Na orla de Copacabana, com forte presença da Guarda Municipal, havia menos camelôs que nos últimos meses. Mesmo assim, eles eram vistos por lá. No Leme, ganharam a companhia até dos equipamentos usados por uma academia de treinamento funcional que, além da areia, resolveu ocupar o caminho dos pedestres na Avenida Atlântica, perto da Rua Anchieta.
Por toda a orla, ainda são comuns outros desrespeitos às regras de convivência. Mesmo proibido nos trechos de areia próximos ao mar das 8h às 17h, no início da tarde de quarta-feira havia tantos adeptos do altinho no Leblon e em Ipanema que ficava claro a total despreocupação com fiscais do município. Na Praia do Diabo, eram os cachorros que brincavam livres, apesar de estarem proibidos em toda a orla da cidade.
A Guarda afirma realizar ações diárias para orientar o público sobre o que pode e o que não pode. Trabalho rotineiro que, segundo a prefeitura, também é feito pela Secretaria de Assistência Social junto à população de rua. Especificamente em Copacabana e no Leme, a pasta afirma haver equipes de plantão 24 horas por dia e que, no recém-lançado Programa Rio + Seguro, foram realizadas 369 abordagens de 3 a 10 de dezembro. Já em Ipanema e no Leblon, afirma, são realizadas duas abordagens diárias por educadores e guardas.
Em relação aos ambulantes, a Secretaria municipal de Fazenda afirma que agentes da Coordenadoria de Gestão do Espaço Urbano fazem fiscalizações rotineiras na orla. Mas, no dia a dia, os banhistas atestam que ainda falta muito para um banho de mar ou um passeio à beira-mar tranquilo, longe da desordem.


