RIO- Copacabana, 8h30m. Um caminhão branco para numa das faixas da Avenida Atlântica, junto aos prédios, trancando uma fileira de carros estacionados nas vagas permitidas na orla. O motorista desce, fecha a porta do veículo e, com o auxílio de dois ajudantes, começa a descarregar sacos de areia e cimento, abastecendo um carrinho de madeira. Tijuca, 9h35m. Um caminhão-baú azul manobra e estaciona sobre uma calçada da Avenida Maracanã. Em seguida, motorista e ajudantes começam a retirar placas e objetos, levando-os para a obra de um edifício, sem se preocupar com o fato de estarem bloqueando a passagem de pedestres. As duas cenas, ocorridas na manhã do dia 25 de abril, são flagrantes de desrespeito ao decreto que proíbe a circulação de caminhões — e a carga e descarga de mercadorias — em diversas ruas do Rio de Janeiro. E que se tornaram rotina nos últimos meses.
Pelas regras municipais, a orla da Zona Sul da cidade e vias como as avenidas Maracanã, Radial Oeste e Dom Helder Câmara, na Zona Norte, fazem parte das áreas de restrição e nos dias úteis deveriam estar livres de veículos pesados das 6h às 10h e das 17h às 21h.
Quem circula de carro e ônibus pelo Rio já percebeu, no entanto, que muitos motoristas de caminhões de carga passaram a ignorar a proibição.
Para o inspetor Itaharassi Bomfim, subdiretor técnico de trânsito da Guarda Municipal, uma das hipóteses para este crescimento de infrações se deve ao medo da violência. Ele conta que, quando são advertidos, muitos motoristas afirmam que passaram a rodar durante o dia porque “está muito perigoso” fazer entregas à noite:
— Os motoristas conhecem as regras e as respeitavam até pouco tempo. Minha percepção é que, por causa do crescimento do roubo de cargas, algumas empresas passaram a embutir o custo da multa no valor operacional, um risco calculado.
O presidente da Federação do Transporte de Carga do Rio de Janeiro (Fetranscarga), Eduardo Rebuzzi, acredita que pode estar havendo falhas na fiscalização.
— O Rio está mergulhado numa desordem urbana que se espalhou por toda a cidade, afetando todos os serviços prestados, como o de transporte de cargas. E, com esta violência, não me espantaria se comerciantes estiverem se negando a receber mercadorias em horários considerados perigosos — disse.
Na quarta-feira passada, uma equipe do GLOBO percorreu a Zona Sul e parte da Zona Norte entre 6h e 10h e encontrou dezenas de caminhões desse tipo em ruas onde eles não deveriam sequer estar rodando. Na Avenida Atlântica, por exemplo, local onde não é permitido trafegar caminhões ou deixar mercadorias nos horários de pico de trânsito, foram fotografados pelos menos três veículos descarregando às 6h56m, 7h12m e 8h30m. Por volta das 7h, um caminhão de supermercado estava estacionado na Atlântica, na altura do Leme. Na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, um motorista estava parado, à esquerda, entregando papel higiênico às 6h56m.
MENOS GUARDAS NAS RUAS
A desordem se repete em Ipanema. Na Avenida Vieira Souto, às 6h28m do mesmo dia, um caminhão descarregava cocos na orla, junto à ciclovia. Na Tijuca, outro, estacionado na calçada, deixava material para uma obra em um edifício, às 9h35m, na Avenida Maracanã.
Para o presidente da Sociedade Amigos de Copacabana, Horácio Magalhães, a invasão de caminhões mostra a falta de fiscalização:
— O guarda municipal é uma espécie em extinção nas ruas de Copacabana.
O número insuficiente de guardas pode estar por trás do fato de as autuações a caminhões ter diminuído, apesar do desrespeito às normas que se constata nas ruas. De acordo com a Guarda Municipal do Rio (GM-Rio), responsável pela fiscalização de operações de carga e descarga irregulares, de 1º de janeiro até 24 de abril, foram aplicadas 4.139 multas, ou 1.035 em média por mês. No ano passado, 31.239 veículos de carga (média de 2.603 mensalmente) foram autuados, e, em 2016, 23.039 (1.920/mês).
Segundo a GM-Rio, a fiscalização é realizada diariamente pelas equipes dos grupamentos especiais de trânsito em todas as regiões da cidade. A infração, prevista no artigo 187 do CTB, é de natureza média, no valor de R$ 130,17, e leva à perda de quatro pontos na carteira de motorista. A GM-Rio informou que vai reforçar a fiscalização nos locais denunciados.

