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Ação que revelou esquema de tráfico no Galeão expôs falhas de segurança no aeroporto

RIO - Nunca a expressão “queijo suíço” foi tão adequada para definir o Galeão-Tom Jobim: seis meses depois da apreensão, no Terminal de Carga Aérea (Teca), de 60 fuzis encomendados pelo tráfico, investigadores voltaram a mostrar como é frágil a fiscalização do que entra e sai do aeroporto, o segundo maior do país. Desta vez, policiais federais descobriram que um grupo de pelo menos 36 pessoas, incluindo funcionários de companhias aéreas e despachantes alfandegários, operavam um esquema criminoso que movimentava cerca de R$ 20 milhões por mês. O bando enviava drogas para o exterior, contrabandeava produtos e vendia para receptadores garrafinhas de bebidas alcoólicas roubadas dentro de aviões.

A operação para desbaratar a quadrilha foi desencadeada na manhã desta terça-feira, e levou à prisão 29 pessoas — sete estão foragidas. Além disso, agentes apreenderam nove veículos (alguns de luxo) e US$ 886 mil em espécie (aproximadamente R$ 3 milhões).

— Existe, no Galeão, uma enorme fragilidade na fiscalização, o que compromete toda a segurança aeroportuária. Não sabemos o que pode estar dentro de um avião. Pode ser uma arma, pode ser um explosivo. Eu diria que essa falta de controle é extremamente grave — afirmou o delegado Wagner Menezes, da Polícia Federal.

Segundo o delegado, as investigações revelaram que a maioria dos integrantes da quadrilha recebia salários baixos e morava em comunidades próximas ao aeroporto.

— São pessoas que recebem salários entre mil reais e R$ 1.500, gente que foi facilmente cooptada pelo crime. Estamos trabalhando, investigando e prendendo. Se depender da Polícia Federal, a situação vai melhorar. Mas volto a dizer que é preciso criar um sistema para melhorar o recrutamento de funcionários — disse Wagner.

Dois servidores da Receita Federal estão entre os detidos. Os outros mandados de prisão foram expedidos contra funcionários de companhias aéreas e da Infraero, e também terceirizados que prestam serviços à empresa. Agentes fizeram buscas no próprio Galeão e em residências no Rio e em Queimados, Belford Roxo, Angra dos Reis e São Paulo. Todos os presos foram indiciados por organização criminosa, tráfico de drogas, associação para o tráfico de drogas, corrupção, facilitação ao contrabando e descaminho e furto qualificado.

— Detectamos várias falhas de segurança. Imagine uma mala entrar em uma área restrita sem que haja fiscalização? Vimos que qualquer coisa pode entrar e sair do aeroporto: armas, bombas, drogas... As ações da quadrilha nos fazem pensar que um explosivo poderia ser colocado numa bagagem e chegar a um avião. Fizemos um trabalho para detectar fragilidades e buscar melhorias na segurança — afirmou o delegado da Polícia Federal Fábio Andrade, coordenador da chamada Operação Rush.

A investigação começou em fevereiro, quando uma bagagem saiu do Galeão e chegou a Amsterdã. Nenhum passageiro a pegou, e a mala acabou voltando ao Rio. Aqui, agentes da Polícia Federal a abriram e encontraram 37 quilos de cocaína. Uma etiqueta indicava que ela seria de um casal de idosos que viajou para Salvador.

— Essa situação nos preocupou. Descobrimos um esquema de duplicação de etiquetas que usava os nomes de passageiros inocentes e passamos a investigá-lo — contou o delegado Wagner Menezes.

A quadrilha que agia no Galeão era dividida em três grupos. Um deles era responsável pelo envio de cocaína para o exterior. A droga ficava guardada em um galpão do Mercado São Sebastião, na Penha, e era transportada até o aeroporto em táxis — para a quadrilha, isso diminuía o risco de seus integrantes serem parados numa blitz. No balcão de check-in, funcionários de companhias aéreas envolvidos no esquema duplicavam etiquetas de malas já despachadas no setor de voos domésticos. Em seguida, o carregamento era desviado por operadores de esteiras, que pegavam novas etiquetas e colocavam a bagagem na área de embarque internacional, driblando os serviços de fiscalização.

Um outro segmento da quadrilha era especializado em contrabando. Malas cheias de produtos comprados no exterior, geralmente em Miami, eram retiradas de aviões e levadas para as esteiras do setor de desembarque doméstico. Assim, o bando evitava a Alfândega. Funcionários de companhias aéreas pegavam as bagagens e as entregavam para cúmplices. Em outra forma de atuação, funcionários do Galeão se encontravam com passageiros que participavam do esquema e os acompanhavam da porta da aeronave até a Alfândega, onde um servidor da Receita Federal liberava o carregamento.

Já o terceiro grupo furtava diariamente garrafinhas de bebidas alcoólicas de aviões. Empregados de uma empresa de catering (serviço de fornecimento de alimentos) praticavam o crime, e levavam os produtos para áreas conhecidas como “pontos cegos”, onde não há vigilância. Depois, entregavam tudo para companhias com trânsito livre na pista do Galeão, que vendiam as mercadorias para receptadores.

Em nota, a RIOgaleão afirmou que apoia “as ações da Polícia Federal e demais órgãos públicos para coibir atos ilícitos no Aeroporto Internacional Tom Jobim, onde atuam mais de 15.000 funcionários de 650 empresas”. A concessionária destacou ainda que “não tolera práticas que descumpram qualquer procedimento operacional e de segurança e possui rigorosos processos de prevenção de ilícitos”, e lembrou que investiu mais de R$ 35 milhões em um novo sistema integrado de vigilância.

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