Início Rio de Janeiro ‘A crise é mais grave para escolas dos Grupos de Acesso’, diz historiador
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‘A crise é mais grave para escolas dos Grupos de Acesso’, diz historiador

Na síntese precisa da professora Monique Augras, especialista no tema, "o desejo (das escolas de samba) de brilhar será acompanhado pela constante preocupação em obedecer às regras do jogo". Em certo sentido, pode-se observar que o desenvolvimento das escolas de samba é cheio de lances, até concomitantes, de adesão, resistência, afago, confronto, negociação e adequação.

As agremiações caminham lidando o tempo todo com o conflito entre o desejo de expressar suas tradições, concepções de mundo e bens simbólicos e a necessidade, para que esse desejo seja realizado, de atendimento às exigências de instâncias aparentemente fora do ambiente do samba: o poder instituído, a indústria turística, a mídia ou a contravenção, por exemplo.

Escolas de samba, enfim, só sobreviveram até hoje porque negociaram o tempo todo; são maleáveis, adequadas e (na adequação) resistentes.

A crise entre a prefeitura e a Liga Independente das Escolas de Samba parece envolver diversos fatores, que vão da agenda de governo do prefeito — membro de uma designação neopentecostal que demoniza saberes afro-brasileiros — até o debate sobre os graves problemas de gestão da Liesa e o uso do dinheiro público pelas agremiações.

O tema tem centralidade: simplesmente não se pode pensar cultura, economia e território no Rio de Janeiro sem as escolas de samba. Elas são — acredito nisso — a mais impressionante invenção carioca inscrita no tempo e no espaço da cidade; expressões vivas dos dramas, dilemas e maneiras de inventar a vida como possibilidade de alegria e beleza da nossa gente.

A crise é mais grave ainda, convém ressaltar, para as escolas dos Grupos de Acesso, especialmente aquelas que desfilam na Intendente Magalhães. As escolas do Grupo Especial têm um poder de barganha e negociação com o poder público e o capital privado. As escolas menores, importantíssimas até como formadoras de sambistas, não têm esse poder e sucumbirão sem o auxílio público.

A prefeitura precisa reconhecer a relevância cultural do carnaval e entender a importância dos desfiles para a economia criativa do Rio de Janeiro. Cultura não é gasto; é investimento. As escolas de samba, por sua vez, precisam também se reconhecer como instituições de ponta da cultura carioca. Ou fazem isso, ou morrerão sem choro, sem vela e sem batucada.

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