BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O ministro da Defesa, Walter Braga Netto, negou nesta terça-feira (17) que tenha feito qualquer ameaça às eleições de 2022 e disse que a discussão sobre a confiança da urna eletrônica virou uma batalha de vida ou morte.
Braga Netto compareceu a uma audiência conjunta das comissões de Fiscalização Financeira e Controle, de Relações Exteriores e Defesa Nacional e Trabalho, Administração e Serviço Público.
O general defendeu suas falas sobre voto impresso e rebateu as críticas ao tema. "Eu acho engraçado hoje em dia que, se a pessoa tem uma posição diferente, ela é criminalizada", afirmou.
A seguir, ele usou o deputado bolsonarista Helio Lopes (PSL-RJ), presente na reunião, como exemplo hipotético de sua argumentação.
"O deputado Hélio é a favor da urna, ele acha que a urna é confiável, e eu acho que a urna não é confiável. Tudo bem. Ele quer apresentar um processo para tornar aquilo mais confiável. Apresente o processo, se for viável, passe ou não."
"Isso virou uma batalha de vida ou morte, é uma questão de posição, de opinião."
Braga Netto se negou a esclarecer sua posição sobre o assunto. "Eu não vou dizer se sou a favor ou não, não estou aqui para emitir opiniões, estou aqui para esclarecer as posições dadas pelas Forças Armadas."
Já no mês passado, em nota oficial, o ministro fez coro com o presidente Bolsonaro e disse que existe no país uma demanda por legitimidade e transparência nas eleições. Segundo ele, ao levantar a bandeira bolsonarista, a discussão sobre "voto eletrônico auditável por meio de comprovante impresso é legítima".
"Acredito que todo cidadão deseja a maior transparência e legitimidade no processo de escolha de seus representantes no Executivo e no Legislativo em todas as instâncias", afirmou o militar na ocasião.
Nesta terça, na Câmara, o general disse não ter feito ameaças caso a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) do voto impresso fosse rejeitada --o que acabou ocorrendo na Câmara no dia 10 de agosto.
"Não me comunico com presidentes dos Poderes por intermédio de interlocutores. No mesmo dia, ainda pela manhã, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), confirmou publicamente que não houve este episódio. Considero esse assunto resolvido, esclarecido e encerrado."
Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo publicada nesta quinta afirma que o ministro teria mandado, por meio de um interlocutor, um recado a Lira segundo o qual, sem a aprovação do voto impresso, não haveria eleições em 2022.
O general falou que o presidente Jair Bolsonaro determinou restrições às celebrações de 7 de Setembro, quando é comemorada a Independência do Brasil. "Não haverá desfiles. Isso foi passado exatamente em virtude da pandemia", disse.
"Nada impede que, dependendo da situação de cada localidade, haja aquelas exposições e demonstrações que são feitas normalmente: bandas, exposição de materiais e tudo mais. Mas desfiles não estão previstos."
Caminhoneiros alinhados ao presidente tentam marcar uma paralisação para o dia 7 de Setembro. O protesto, segundo vídeo divulgado por Sérgio Reis, seria favorável ao presidente e defenderia a destituição de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e o voto impresso.
Braga Netto também falou sobre o desfile de blindados realizado no mesmo dia da apreciação do voto impresso pelo plenário da Câmara dos Deputados e afirmou que nunca houve intenção de pressionar ou ameaçar Poderes, grupos ou qualquer pessoa.
Segundo ele, tratou-se apenas do ato de entrega de convite ao presidente da República, ao ministro da Defesa e aos comandantes das Forças Armadas para assistirem ao tradicional exercício militar em Formosa (GO) que ocorre desde 1988. O evento, argumentou, foi planejado com meses de antecedência.
"Ressalto que apesar de a Marinha ter antecipadamente divulgado o evento e oportunamente desmentido a tese de pressão sobre as instituições, parcela da imprensa e outros poucos atores políticos cuja motivação não me cabe avaliar insistiram nessa narrativa."
"Os senhores podem ver que isso já estava planejado muito antes, inclusive a marcação da votação foi na véspera. Nós não sabíamos disso e não tínhamos como reverter", disse.
Braga Netto afirmou ainda que as Forças Armadas cumprem apenas o que está previsto na Constituição.
O voto impresso é insistentemente usado por Bolsonaro para fazer ameaças golpistas contra as eleições de 2022. Ele havia condicionado o pleito do próximo ano à aprovação da PEC no Congresso.
Para enterrar o tema, Lira decidiu retirar a proposta da comissão especial em que ela havia sido rejeitada e deixar a deliberação final para o plenário.
Segundo o presidente da Câmara, Bolsonaro havia se comprometido a aceitar o resultado da votação. O texto recebeu 229 votos favoráveis, quando eram necessários 308 para sua aprovação.
No dia seguinte, porém, o presidente descumpriu o acordo com Lira e continuou contestando a lisura das urnas eletrônicas.
Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, o líder do governo no Câmara, deputado Ricardo Barros (PP-PR) disse que o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) ia "pagar o preço" por não ter buscado um acordo com defensores do voto impresso para alcançar um meio-termo na PEC.


