Compartilhe este texto

Manchetes atordoam, informam e até divertem


Por Elizabeth Menezes

21/03/2024 19h29 — em
Ombudsman



Manchete é o chamariz da notícia, o resumo da informação que leva o leitor/ouvinte/telespectador a decidir se deseja ou não conhecer os detalhes. Afinal, este é o século de informações instantâneas, incontáveis, nos diversos veículos de comunicação. Daí a sua importância na divulgação dos fatos e consequente responsabilidade do “criador”, quando se trata de conteúdo jornalístico (é diferente nas publicações satíricas, por motivos óbvios). E por relatar acontecimentos da hora, as manchetes podem trazer preocupação, revolta, tristeza e outros sentimentos negativos, mas também podem divertir, pelo menos num primeiro momento. 

“Máquina de fazer cigarro que mede 6 m e pesa mais de 5 t é furtada de dentro da Cidade da Polícia”, por exemplo, podia ser uma brincadeira. Mas não é. Simplesmente a máquina desapareceu em fevereiro de 2023, a Polícia Civil do Rio de Janeiro descobriu o sumiço em junho e um inquérito foi instalado só em novembro. Na Cidade da Polícia funcionam 15 delegacias especializadas e trabalham mais de três mil agentes. Descobrir de que forma um equipamento de 5 toneladas, do tamanho de um caminhão, conseguiu ser levado de um lugar tão seguro sem ninguém perceber, talvez seja uma tarefa para o Sherlock Holmes.

“Presidência encontra móveis que haviam ´sumido´ do Palácio do Alvorada” e “Governo acha todos os 261 itens do Alvorada após Lula culpar Bolsonaro por sumiço”, duas das manchetes da quarta-feira 20, também poderia ser mais um “crime” para o Sherlock resolver. Por enquanto, o “reaparecimento” de tantos móveis durante a passagem do governo Bolsonaro para o terceiro governo Lula, deu mais munição para a troca de insultos e acusações entre os dois grupos políticos. O impacto dessa notícia parece ter ajudado a amortecer a outra, sobre Bolsonaro ter sido indiciado pela Polícia Federal, por suspeita de ordenar fraude em cartão de vacinação contra a Covid-19 (com a engenhosa ideia de inserir dados falsos em sistema de informação).

“Professor da USP é afastado após ´premiar´pior aluna: ´Fui constrangida´”. Então um professor da Universidade de São Paulo (já foi afastado), resolveu dar um prêmio de pior da turma, a uma aluna do curso de geologia. Fez isso na frente de colegas. O prêmio? Um livro de poesias escrito por ele, que é professor de Geociências.  Já os dois melhores alunos receberam uma coleção de livros de sua autoria, sobre geologia. A aluna considerada a pior da turma, teve de se levantar para receber o “prêmio”. E o professor ainda pediu para aluna ler uma de suas poesias, o que ela recusou. A história da jovem, contada por ela: foi prejudicada nos estudos porque teve problemas de saúde (até se submeteu a duas cirurgias). Essa história precisava mesmo ser contada. 

A coluna também pinçou quatro manchetes das páginas policiais, para ilustrar este texto. “Homem é preso dentro de banco após fazer empréstimo de R$ 80 mil”; “Homem abre ´camburão´da Força Tática e ajuda preso a fugir em Manaus”; “Encomenda de açaí revela pacotes de maconha no Porto do São Raimundo”; “PCC usa mergulhadores e lanchas para esconder droga em cascos de navios no Porto de Santos”. As três primeiras foram retiradas de publicações locais e a última de matéria nacional. Em todos os casos, exemplos de esperteza e criatividade dos grupos que vivem à margem da lei, assim considerados. E a mídia não pode deixar de divulgar. Pelo menos é esse o entendimento até agora e assim acontece. É o registro para a História (PCC é sigla para Primeiro Comando da Capital, uma organização criminosa criada em São Paulo, que se espalhou para outros estados e chegou até o Paraguai e a Bolívia). 

“Israel diz ter matado 90 homens armados dentro do maior hospital de Gaza”, manchete de quarta-feira 20, não deveria ocupar espaço em nenhum veículo de comunicação. Porém, se tem espaço é porque há guerra, sinônimo de morte e destruição, desde sempre, em vários lugares, em todas as épocas. “Rússia lança maior ataque de mísseis contra Kiev em semanas” e “Ucrânia intensifica ataques e Rússia determina ´evacuação urgente´ de nove mil crianças”, é mais um capítulo da guerra iniciada em 24 de fevereiro de 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia. No domingo 18, Vladimir Putin foi reeleito para a presidência da Rússia pela quinta vez, com mais de 87% dos votos. Ficará no cargo até 2030. E a guerra com a Ucrânia completou dois anos, sem hora para acabar. Como se fosse normal. 

Não é a imprensa que inventa os acontecimentos: apenas os relata, em manchetes que “avisam” o leitor/ouvinte/telespectador sobre o assunto abordado.

Siga-nos no
Elizabeth Menezes, jornalista formada pela Ufam (Universidade Federal do Amazonas), repórter em jornais de Manaus, a exemplo de A Notícia, A Crítica e Amazonas em Tempo. Também trabalhou na assessoria de Comunicação da Assembleia Legislativa.

E-mail: [email protected]

ASSUNTOS: Ombudsman

+ Ombudsman