DAMASCO - Em rota de colisão com os Estados Unidos e aproximação da Rússia, a Turquia desencadeou uma ofensiva contra as forças curdas Unidades de Proteção Popular (YPG) em Afrin, no Noroeste da Síria. O ataque tem por objetivo conter o crescente poderio da milícia na região, visto como uma ameaça por Ancara, que enfrenta um movimento separatista curdo em seu próprio território.
O ministro da Defesa da Turquia, Nurettin Canikli, garantiu que as tropas do país ainda não cruzaram a fronteira, limitando-se por enquanto ao bombardeio com artilharia. Durante a semana, autoridades turcas levantaram repetidas vezes a possibilidade de uma invasão, contrariando apelos de Washington para que a operação fosse suspensa.
— A operação vai acontecer e a organização terrorista será extirpada — afirmou Canikli à rede de TV A Haber.
Consideradas por Ancara uma extensão do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), organização que há décadas trava uma batalha contra o governo turco, as YPG são apoiadas pelos Estados Unidos e foram vitais para as vitórias contra o Estado Islâmico (EI) na Síria e no Iraque. Washington reagiu ao ataque.
— Não acreditamos que uma operação militar sirva a causa da estabilidade regional, da estabilidade síria ou mesmo as preocupações turcas sobre a segurança de sua fronteira — disse um funcionário dos Departamento de Estado.
Embora não tenha confirmado o envolvimento da Rússia na operação, Canikli indicou que Ancara recebeu um sinal verde do Kremlin para atacar as YPG. O chefe das Forças Armadas turcas, Hulusi Akar, viajou a Moscou para discutir uma permissão de uso do espaço aéreo sírio durante a operação — na área, há observadores militares russos, e o Kremlin é um dos principais aliados do ditador Bashar al-Assad. Apesar disso, Damasco ameaçou derrubar qualquer aeronave turca envolvida em ataques a seu território.
A operação coincide com o anúncio do governo americano de criação de uma força fronteiriça de 30 mil soldados, que seria comandada pelas Forças Democráticas Sírias, coalizão militar liderada pelas YPG. O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, acusa a milícia curda de tentar criar um “corredor de terror” na fronteira da Síria com a Turquia.
O ataque também reflete as frustrações cada vez maiores do governo turco com o apoio dado por Washington às forças curdas, que atualmente controlam cerca de 25% do território sírio e se concentram em regiões próximas às fronteiras com Turquia e Iraque. Rússia, Irã e Turquia têm interesse em limitar a presença americana no país e encaram a criação da força fronteiriça como uma tentativa americana de criar uma zona-tampão livre da influência do Irã e do governo sírio, apoiado por Teerã.
A operação seria uma maneira de minar as aspirações curdas de uma autonomia federalizada para o Norte da Síria, região onde está a fronteira com a Turquia.
Cerca de dez mil soldados curdos atuam em Afrin, que abriga menos de 800 mil habitantes, a maioria deles deslocada de outras áreas do país afetadas pela guerra civil iniciada em 2011. Especialistas acreditam que um conflito na região pode não apenas causar uma nova tragédia humanitária na Síria, como também se espalhar para o território turco.
“As YPG estão prontas para enfrentar tropas turcas e terroristas do Exército Livre da Síria”, afirmou a milícia em comunicado. “Se eles ousarem atacar, nós os enterraremos um por um em Afrin”.

