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Análise: Poder turbulento e caótico nos EUA

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WASHINGTON. A guerra verbal como rotina, o enfrentamento como estratégia e a polêmica como estilo. Assim foi o primeiro ano de Donald Trump na Casa Branca. E, ao que tudo indica, assim continuará a ser os outros três anos que restam de seu governo - embora existam dúvidas crescentes sobre sua continuidade, os maiores questionamentos sobre um presidente americano em meio século.

O caos que marcou o governo e chocou o mundo, contudo, guarda coerência: Trump não fez como os políticos tradicionais e se manteve fiel ao que defendeu na campanha. O problema, segundo especialistas, é que o Trump candidato nunca tentou falar com todo os Estados Unidos: ao escolher um lado radicalizado para ser eleito, virou presente apenas da metade - ou um pouco menos - do país. E ao fugir do tom presidencial tradicional, que busca consensos e união, Trump realimenta a divisão, a turbulência e o enfrentamento.

O bom momento econômico do país - em grande parte herdado de Barack Obama e de uma conjuntura global favorável - turbina este estilo. Mas, por outro lado, a criação de empregos e de riqueza mascara problemas gerenciais que, segundo analistas e políticos, nunca foram vistos na Casa Branca moderna: a falta de objetivos e caminhos claros, disputas internas, além de uma equipe pouco experiente e vazios inexplicáveis em cargos-chave da administração, cedo ou tarde, cobram seu preço.

O shutdown (a paralisação do governo por impasse orçamentário) justo no dia em que completa um ano de presidência, é o melhor exemplo disso. A divisão dentro de seu governo e a falta de coordenação até mesmo com seu partido (quem de fato coloca o muro na fronteira com o México como prioritário, além do presidente?) se somou, no caso, a uma intransigência política de alguém pouco afeito à negociação. O presidente prefere blefar e resolver tudo de forma intensa - não por acaso, Trump ficou famoso ao demitir pessoas em um reality show.

Mas isso nem sempre gera resultados na política. O radicalismo exacerbado causa feridas profundas na sociedade e dificulta ainda mais a governabilidade. Mais do que impactar o país, isso cria obstáculos para a própria agenda de Trump: os protestos e a Justiça estão provando que o sistema de pesos e contrapesos, aliado a uma sociedade novamente atuante, funciona. E este cenário pode piorar em um momento extremo, caso de uma recessão, uma emergência global ou uma implicação mais severa de seu governo na investigação da trama russa, por exemplo.

Um país que liderou o mundo desde a Segunda Guerra não mergulha tão intensamente no nativismo sem consequências. Com aliados receosos e, internamente, um partido que cada vez mais o vê como um ente à parte, Trump impôs a presidência mais personalista da História americana recente. O problema é que, com seu estilo, divide: seus apoiadores, minoria na sociedade americana, o idolatram, enquanto seus oponentes não o suportam. Parafraseando Roberto Jefferson, que voltou aos holofotes brasileiros na virada ano, Donald Trump desperta os instintos mais primitivos nas pessoas.

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