WASHINGTON — Embora tenha um conteúdo muito menos explosivo que o esperado, o memorando da Comissão de Inteligência da Câmara dos Representantes acusando o FBI e o Departamento de Justiça de serem tendenciosos — tornado público ontem por decisão do presidente Donald Trump — mudou o nível da crise política nos EUA. As críticas aos dois órgãos abriram uma disputa institucional, ampliaram a sensação de que o presidente tenta evitar a investigação da chamada trama russa, e chegaram ao “mundo real”, com o pior dia nos mercados financeiros desde que Trump chegou à Casa Branca. Democratas alertaram para a possibilidade de uma “crise constitucional”.
A renúncia esta semana de Andrew McCabe, número 2 do FBI, após forte pressão republicana, tornou o ambiente ainda mais nebuloso. O atual diretor do órgão, Christopher Wray, defendeu o FBI e teria prometido renunciar, segundo fontes, caso a Casa Branca interferisse nas investigações.
Elaborado pelo presidente da Comissão, o republicano Devin Nunes, o documento de quatro páginas acusa o FBI e o Departamento de Justiça de abuso de poder, por terem aplicado táticas de vigilância supostamente abusivas contra a campanha de Trump e acionado a Justiça para vigiar um assessor da equipe do então candidato que visitara a Rússia meses antes. O texto foca num pedido enviado pelo governo a um juiz especial em 2016 para grampear Carter Page, assessor da chapa republicana que viajara à Rússia em julho daquele ano e se preparava para outra visita em dezembro. Trump não apenas autorizou a divulgação do memorando, como criticou os dois órgãos:
— Acho que é uma desgraça o que está acontecendo neste país. Muitas pessoas deveriam sentir vergonha. Vamos ver o que acontecerá — afirmou.
Mais cedo, o presidente já fizera acusações de parcialidade: “As principais lideranças e investigadores do FBI e do Departamento de Justiça têm politizado o sagrado processo investigativo a favor de democratas e contra os republicanos — algo que seria impensável até pouco tempo atrás”, escreveu Trump no Twitter.
A Associação dos Agentes do FBI defendeu a instituição e disse que “não permitirá que a política partidária a distraia” de sua missão.
“O povo americano deve saber que continua sendo bem servido pela mais importante agência de aplicação da lei do mundo”, disse em nota o presidente da entidade, Thomas O’Connor.
O FBI e o Departamento de Justiça apuram a interferência russa no processo eleitoral americano, o que gerou várias sanções contra Moscou. E surgiram indícios de que membros da campanha de Trump estariam em conluio para prejudicar Hillary Clinton — crime que pode gerar o impeachment do presidente. Quando as investigações avançavam, Trump demitiu o diretor do FBI, James Comey, gerando suspeitas de tentar barrar a Justiça, outro ato que pode tirá-lo da Casa Branca. As investigações estão cada vez mais próximas do republicano, que talvez tenha que dar depoimento ao procurador especial do caso, Robert Mueller, nos próximos dias.
E esse memorando — considerado menos revelador e com dados incompletos pela imprensa americana — pode ser a senha para Trump tentar destituir Mueller. O presidente desconversou quando questionado sobre isso ontem. Um grupo de democratas emitiu carta ao presidente alertando que não aceitará a demissão de Mueller ou Rod Rosenstein, vice-procurador dos EUA, que assumiu a responsabilidade pela trama russa após o titular, Jeff Sessions, declarar-se impedido ao ser descoberto que omitira reuniões com autoridades russas quando ainda era senador.
“A demissão de Rod Rosenstein ou de Mueller pode resultar numa crise constitucional do tipo não visto desde ‘o Massacre de Sábado à Noite’”, escreveram os legisladores, referindo-se às ordens de Richard Nixon em 1973 para demitir o procurador especial que o investigava e que culminou com sua renúncia para evitar o impeachment no caso Watergate.
Com isso, as bolsas de valores americanas registraram seu pior resultado desde a chegada de Trump ao poder, em janeiro de 2017. O índice Dow Jones caiu 2,5%.
— Não apenas Trump, mas também o Partido Republicano está num caminho perigoso de poder a qualquer custo, colocando em xeque as instituições do país — avaliou ao GLOBO Erick Langer, professor de História de Georgetown University. — Ele age como um chefe de empresa, não como um presidente. Trump quer não se submeter ao sistema de controle do Legislativo e da Justiça.
O professor alerta que qualquer ganho político que o presidente tenha obtido com seu discurso sobre o Estado da União, na terça-feira, pode ter acabado.
— Ficará muito mais difícil fechar um acordo com os democratas em questões migratórias ou evitar uma nova paralisação por impasse orçamentário — disse ele (o prazo para o é dia 8).
O caso gerou fortes debates dos dois lados, até com republicanos moderados criticando a decisão de Trump, numa indicação de que o tema não deve esfriar nos próximos dias.
— Os últimos ataques ao FBI e ao Departamento de Justiça não servem aos interesses americanos — disse o senador republicano John McCain. — Se continuarmos a minar nosso próprio Estado de direito, estamos fazendo o jogo de (Vladimir) Putin.

