Início Mundo ‘O correísmo, em uma versão mais light, continua vivo e no poder’
Mundo

‘O correísmo, em uma versão mais light, continua vivo e no poder’

Envie
Envie

RIO — Prestes a voltar a morar no Equador no meio do ano, após ter sido expulsa do país em 2015, a brasileira Manuela Picq, professora da Amherst College, vê com desconfiança o “divórcio” entre Lenín Moreno e Rafael Correa, mas destaca o “clima de reconstrução” no país. Casada com um líder indígena equatoriano, Manuela visitou o país no mês passado.

O governo do Equador era muito violento e ficou ainda mais violento depois que saí do país em 2015. Agora há a sensação de que Moreno roubou a eleição, então ele chegou à Presidência muito mais vulnerável e buscando uma reconciliação. Minha possibilidade de retornar está inteiramente ligada a essa mudança de governo.

Não tenho tanta certeza de que há um divórcio entre Moreno e Correa. O partido (Aliança Pais) virou a casaca contra Correa, mas continua inteiro no poder, especialmente no alto escalão do governo. Toda a estrutura correísta permanece e não há muita mudança em relação à liderança.

A pergunta sobre o Parque de Yasuní é uma falsa pergunta. Fala-se na redução da área de exploração, mas a área impactada é muito maior e não está sendo contabilizada. A proposta é reduzir a área de exploração a 300 hectares, mas esse número já é superior ao que as petrolíferas pretendiam explorar. Esse é um caso no qual um 'sim' ou um 'não' não faz diferença porque a pergunta foi deliberadamente mal formulada.

Vivemos agora um correísmo sem Correa, mas o correísmo, em uma versão mais light, continua vivo e no poder. Correa mascarava números, como os da dívida externa. Moreno tem sido mais transparente, e esse talvez seja o maior indicador de redemocratização. Sabemos que ele não nos dará a democracia como merecemos, mas ele é alguém que pode ser empurrado pela pressão popular a posições mais democráticas. A Revolução Cidadã ainda tem uma ressonância muito grande entre os equatorianos, mas há um cansaço generalizado com Correa. Hoje seus comícios estão vazios, algo absolutamente inimaginável há um ano. E Moreno e facção que se distanciou de Correa souberam aproveitar esse cansaço para estabelecer uma diferença com o governo anterior.

O escândalo petrolífero não deve ter grandes repercussões. Quem está no poder são pessoas que estavam com Correa em seu governo, e se ele for preso levará muita gente junto. O que a nova gestão deve fazer é lutar para mudar os membros do Conselho de Participação Cidadã, que atuam como um quinto poder, controlando por exemplo as escolhas do Judiciário, o que significaria trocar uma máfia pela outra. E há uma certa aceitação popular com a ideia de que Moreno colocará seus mafiosos, porque pelo menos passa uma ideia de alternância. Mas assim como Correa assumidamente meteu a mão na Justiça, Moreno também o fará. A proposta de manter longe da política pessoas acusadas de corrupção poderia ser usada contra Correa e seus aliados, mas é bastante perigosa, já que no Equador muitas pessoas foram injustamente condenadas nos últimos anos, e isso certamente se transformaria num instrumento para manter pessoas “indesejáveis” longe da política.

Correa vai sempre se apresentar como uma vítima de um complô da imprensa. Moreno tem uma relação melhor com os meios de comunicação, mas não se pode pensar que eles são seus fãs. A Lei de Comunicações continua em vigor e caso o país volte a enfrentar protestos e haja forte repressão não será surpresa se o governo resolver atuar contra a imprensa também.

Há esperança no Equador. Há menos medo nas ruas, e as pessoas já não se sentem tão vigiadas. É um ambiente diferente e há um clima de reconstrução, mas, como toda reconstrução, ela será muito mais lenta do que gostaríamos, e haverá erros e acertos, avanços e retrocessos.

(Risos) Nada a declarar. As palavras de Correa não valem minha saliva.

Siga-nos no

Google News