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Indecisa, May tenta agradar a lados opostos no Brexit

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LONDRES — A primeira-ministra Theresa May encerrou uma visita à China na qual pretendia mostrar que o Reino Unido pode assinar acordos bilaterais de peso sem fazer parte da União Europeia (UE) e, assim, fortalecer seu país no cenário internacional. Terminou com a promessa de acordos no valor de US$ 12 bilhões, mas não conseguiu escapar da crise que atinge o Partido Conservador e muito menos da imagem de uma líder enfraquecida.

O futuro incerto do Brexit aumentou as pressões sobre a primeira-ministra, cuja liderança vem sendo questionada por seus próprios aliados. O governo precisa definir nas próximas semanas como será seu relacionamento comercial com a UE durante um período de transição de dois anos, até a saída definitiva do bloco. A recusa de May em dar detalhes sobre que tipo de relação o Reino Unido pretende manter com os vizinhos europeus após a saída ameaça sua permanência no cargo. A falta de clareza do governo reflete a divisão que tomou conta do país, quase dois anos depois da vitória do Brexit.

A primeira-ministra prometeu ontem que o cronograma das negociações será seguido e até o final de março haverá um entendimento sobre os termos da transição. Ela voltou, no entanto, a dar respostas vagas sobre em que condições a separação ocorrerá. May está em meio a uma guerra entre duas tropas inimigas de seu partido: de um lado, estão os que defendem uma saída total do mercado único e da união aduaneira para permitir que o Reino Unido firme novos acordos com outros países sem se submeter às regras de Bruxelas; do outro, estão os conservadores que preferem manter as relações comerciais com a UE praticamente no mesmo patamar do atual para não prejudicar a economia britânica. A premier rejeitou decidir entre essas duas opções:

— Minha escolha é muito simples: resgatar o controle sobre nosso dinheiro, nossas fronteiras e nossas leis — respondeu em entrevista à BBC, reafirmando os princípios nacionalistas que levaram ao Brexit. — Queremos negociar um acordo de livre comércio com a UE, o que seria bom para manter empregos no Reino Unido, mas queremos também liberdade para firmar acordos com o resto do mundo, e isso é o que trará a prosperidade aos britânicos.

Para os críticos de May, o plano inconsistente do governo agrava o clima de instabilidade no país. Os negociadores da UE já deixaram claro que não há a possibilidade de continuar a negociar com o bloco sem seguir as diretrizes de Bruxelas. A recusa de May em aceitar essa realidade levou a imprensa britânica a adotar a expressão “La La Land”, ou seja, terra da fantasia, para definir a linha pouco clara da premier em relação ao Brexit. A viagem à China não trouxe grandes avanços nos laços econômicos entre Londres e Pequim.

A primeira-ministra viveu nos últimos dias uma das semanas mais difíceis de seu governo, em meio a rumores de que poderá enfrentar uma moção de desconfiança no Parlamento. Seus adversários mais ferrenhos são os defensores do chamado Brexit, que exigem um rompimento definitivo com a UE, e temem que May esteja disposta a aceitar uma saída amigável (apelidada de Brexit) para garantir, entre outros benefícios, a livre circulação de mercadorias entre o Reino Unido e o bloco europeu.

— É quase certo que o Brexit aconteça como previsto, mas é muito importante que a premier defina em breve o que seu governo deseja em relação ao status final da retirada da UE — diz Henry Newman, diretor do instituto independente Open Europe. — Enquanto alguns eurocéticos prefeririam evitar um período de transição, outra parte também entende que é necessário tranquilizar os empresários.

Na tentativa de agradar aos dois lados, May parece paralisada. Os analistas políticos descartam uma renúncia iminente, enquanto não surge uma nova liderança clara dentro do partido.

— Sua posição é muito difícil. Ela tem tentado satisfazer os dois lados. Do ponto de vista do público, dá a impressão de uma líder um tanto confusa e fraca, que não sabe defender os interesses britânicos. Muita gente que votou pelo Brexit está cansada por não entender o motivo de tanta negociação. E quem votou pela permanência na UE exige uma saída o menos dolorosa possível — pondera a analista política Judi Atkins, da Universidade de Coventry, para explicar o dilema da premier. — É muito difícil fazer uma previsão sobre qual lado vencerá. Por enquanto, May parece estar conseguindo se segurar como o menor dos males para o partido.

A situação de May poderá ficar insustentável se os conservadores forem derrotados nas eleições municipais de maio. Pesquisas indicam a oposição trabalhista vencendo as disputas distritais de Londres.

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