LONDRES - Depois de ser brevemente interrompida por causa do ataque na Mancheter Arena, que deixou 22 mortos e mais de 60 feridos na segunda-feira, a campanha eleitoral britânica voltou com força total na sexta-feira, repleta de críticas à primeira-ministra Theresa May e aos conservadores. O líder dos trabalhistas, Jeremy Corbyn, culpou parcialmente a política externa do governo — e os cortes no orçamento policial — pelo atentado de segunda-feira à noite, sendo rebatido por ministros. E a menos de duas semanas das eleições de 8 de junho, uma pesquisa do instituto YouGov para o jornal “The Times” mostra uma vantagem de apenas cinco pontos percentuais nas intenções de voto dos conservadores (43% a 38%) em relação aos trabalhistas liderados por Corbyn. No início da campanha, a margem era de 20% em favor dos conservadores. Com uma margem tão pequena, fica incerto o impacto que o atentado possa vir a ter na campanha.
— A responsabilidade do governo é a de assegurar que a polícia tenha todos os recursos de que precisa — disse o líder dos trabalhistas, ressaltando que não quer diminuir a culpa dos terroristas. — Muitos especialistas, inclusive dos serviços de Inteligência, lembraram a ligação que existe entre as guerras que este governo apoia e o terrorismo no nosso país. Precisamos de uma forma mais inteligente de reduzir o risco de países que estão na origem do terrorismo.
As críticas de Corbyn se unem às declarações de quinta-feira de Suzanne Evans, a número dois do Ukip (Partido para a Independência do Reino Unido) — segundo a legenda, May teria parte da responsabilidade no atentado pelos cortes na área de segurança. Com quase 20 mil policiais a menos do que quando os conservadores chegaram ao poder, em 2010, a preocupação com o tema provavelmente se tornará uma questão importante na reta final da campanha.
Opositores, por sua vez, acusaram Corbyn de politizar o ataque. A ministra do Interior, Amber Rudd, classificou o comentário como “ultrajante” e negou que os cortes tenham interferido na resposta ao atentado.
— Sugerir que há qualquer ligação, que há qualquer justificativa, para os eventos que ocorreram na noite de segunda-feira em Manchester com a política externa do Reino Unido é ultrajante — rebateu.
Mas a crítica mais contundente veio do ministro dos Relações Exteriores, Boris Johnson, que chamou as declarações de “absolutamente monstruosas” — o próprio Johnson, no entanto, fez comentários semelhantes ao de Corbyn quando não estava no governo.
— Agora não é o momento de fazer nada para diminuir a responsabilidade fundamental daqueles indivíduos, desse indivíduo em particular, que cometeu esta atrocidade — disse.
A boa notícia para May é que os números da sondagem — realizada entre quarta e quinta-feira, logo após o atentado em Manchester — parecem ter pouco a ver com sua resposta ao ataque: a premier aparece com 22 pontos de vantagem sobre Corbyn no que diz respeito à segurança contra o terrorismo.
— O que teria feito oscilar os pratos da balança foi a grande polêmica em torno dos cortes na Segurança Social propostos pelos conservadores — explicou Anthony Wells, diretor de investigação da YouGov.
As eleições serão um importante teste para o governo de May, que assumiu o cargo sem passar pelo voto popular — ela substituiu o ex-primeiro-ministro David Cameron, que renunciou após ter sido derrotado no referendo sobre o Brexit, no ano passado. Com bons índices de aprovação, a premier agora espera que a população a escolha nas urnas, o que referendaria e daria força à sua condução da saída britânica da União Europeia. Após o atentado, ela decidiu encurtar em um dia sua participação na cúpula do G7 depois que as autoridades britânicas elevaram o estado de alerta por ameaça terrorista a seu nível mais alto.
Enquanto isso, a polícia britânica continua à caça de suspeitos de terem ajudado o autor do massacre, Salman Abedi, de 22 anos. O chefe do comando britânico de combate ao terrorismo, Mark Rowley, confirmou que “boa parte” da rede extremista envolvida no atentado havia sido desmantelada. Segundo ele, a investigação continua com progressos “imensos”.
— Estamos satisfeitos em ter capturado alguns dos protagonistas que nos preocupavam, mas ainda há mais a fazer — afirmou Rowley. — Apreendemos itens significativos para a investigação.
Ainda assim, o chefe da polícia de Manchester, Ian Hopkins, afirmou que o nível de alerta de segurança continua crítico. O que levou à presença, pela primeira vez, de policiais armados nos trens e à suspensão das viagens escolares a Londres, além de outras medidas de vigilância para um fim de semana prolongado — segunda-feira é feriado no país — com grandes eventos previstos, como a final da Copa da Inglaterra, no sábado.

