Início Mundo Artigo: Medo só fortalecerá os conservadores
Mundo

Artigo: Medo só fortalecerá os conservadores

Envie
Envie

Quando a deputada Jo Cox foi assassinada, há quase um ano, tentei me confortar com a ideia de que isso pudesse ao menos pôr fim à primavera do ressentimento político. O assassino era um neofascista que se irritava com defesa dos refugiados e imigrantes por Cox. Pensei que algum senso de decência retornaria à campanha do Brexit. Meu país teria que perceber que o amargo nacionalismo estimulado por políticos e meios de comunicação de direita o estava transformando numa paródia sombria, desesperançosa e brutal de si mesma. Pensei que o povo só poderia reagir ao assassinato de um político com nojo da política que nos levou a esse ponto. Estava errado.

O Reino Unido ruma a outra importante votação: as eleições gerais do próximo mês. E assim como em 2016, a campanha sofreu com um ato de violência terrível. No rescaldo do atentado em Manchester, surgem vastos sinais de uma decência instintiva: taxistas ajudando a retirar sobreviventes, estranhos abrindo suas casas a pessoas vulneráveis, milhares doando sangue, a recusa em deixar que a crueldade de um homem colocasse as pessoas contra seus vizinhos. Mas o terrorismo é sempre político, e essa atrocidade terá efeitos políticos.

O Reino Unido virou um lugar muito mais sórdido desde o Brexit. A violência contra as minorias étnicas e sexuais tem aumentado, tabloides rugem “Inimigos do povo” e “Esmagar os sabotadores”, e a atmosfera política traz um autoritarismo implícito. Os descontentes com o Brexit são “traidores” e “elitistas”, que reclamam e choramingam.

A maior parte desse sentimento ecoa na pessoa da premier Theresa May, que goza de popularidade quase sem precedentes numa população que ela quase sempre se esforça para evitar. Enquanto comícios do líder trabalhista Jeremy Corbyn transbordam de gente, May opta por projetar a imagem de uma burocrata inerte, mas capaz. Mas seu histórico como ministra do Interior e premier está cheio de desastres e reviravoltas, e ela parece impulsionada por uma ideologia antimigração fanática. Não só quer reduzir a migração interna, mesmo que isto signifique um cancelamento desastroso dos acordos com a União Europeia: ainda insistiu que estudantes estrangeiros virassem alvos das agências de imigração.

A campanha eleitoral foi até suspensa por respeito às vítimas. No entanto, permitiu que May reafirmasse a imagem de si mesma como líder forte, estável e séria, capaz de tomar decisões difíceis. O governo enviou 5.000 soldados para patrulhar as ruas. A decisão pode ou não ter sido motivada politicamente, mas tem efeitos políticos imediatos. Uma medida como esta pode ser interpretada como caos e fraqueza.

Mas desta vez pode ser diferente. Desde o Brexit, estão presentes todos os elementos que podem levar as pessoas a acolher soldados nas ruas e aplaudir quem os pôs lá. Um líder popular que busca concentrar poder; uma atmosfera de medo, suspeita e tensão; um ressurgimento do culto ao Estado e seus símbolos; o trauma da violência e a ameaça de quem está do outro lado. Isso não apenas ajuda os conservadores: é um microcosmo do que representam. A presença de homens fortemente armados no dia a dia não impõe tanto a ordem — pela percepção de que não é comum, que vivemos em tempos perigosos e excepcionais, um estado de sítio não declarado. E esta impressão não está errada.

Siga-nos no

Google News