A CPI da Covid está a caminho do encerramento. O relatório será, naturalmente, político e o alvo o presidente Jair Bolsonaro e a Prevent. As omissões são muitas. O relatório não deve citar a experiência malfadada com a proxalutamida, realizada em Manaus, e que a Unesco considerou “um dos mais graves e sérios episódios de infração ética e violação de direitos humanos de pacientes na história da América Latina”.
Com três senadores, dois dos quais como membros efetivos da comissão, o Amazonas parece não ter vivido a maior tragédia sanitária de sua história. Fora alguns instantes de emoção, em que o drama local das mortes por falta de oxigênio foi comentado, a pesquisa com pacientes com droga experimental e que resultou em fracasso e mortes, foi ignorada. Como se os senadores amazonenses vivessem em um mundo paralelo, restrito a Bolsonaro e a Prevent.
Mais grave do que o Kit Covid com Ivermectina e Azitromicina, foi o uso da proxalutamida, que o infectologista Dirceu Greco, presidente da Sociedade Brasileira de Bioética, apontou como escandaloso.
A nível local - e a CPI tem na sua presidência o senador Omar Aziz - o desinteresse da Comissão em apurar erros e desvios éticos foi no mínimo estranho.
A Assembleia Legislativa do Amazonas poderia ter instalado uma CPI específica para este problema, mas também não o fez. Poderá ainda fazê-lo, pois o tempo é agora. Mas os deputados, ao que parece, querem distância de um problema que ainda não perceberam que é deles, pois representam eleitores que sofreram, perderam parentes ou ficaram sequelados.
O fato é que houve conflitos de interesse durante a pesquisa, propaganda de cura que não se concretizou, silêncio das autoridades em torno de um problema de saúde pública gravíssimo.
Ninguém sairá impune desse episódio - nem os que patrocinaram a pesquisa, já denunciados aos organismos internacionais, nem os que se omitiram de investigar. Com a palavra, os eleitores...



