RIO e BARCELONA - Às vésperas do referendo convocado pelas autoridades da Catalunha — considerado ilegal pelo governo central espanhol — a repressão de Madri aos esforços para a realização da consulta sobre a independência da região, agendada para domingo, se intensificou, aumentando a tensão entre os dois campos. Ontem, a Suprema Corte da Catalunha entrou na luta para prevenir a realização do referendo e ordenou que as polícias nacional e local evitem que prédios públicos sejam usados como pontos de votação. Além disso, deverão confiscar materiais relacionados à consulta. Na outra ponta, associações de ensino e educadores assinaram um manifesto a favor do uso das escolas como centros de votação, e universitários se mobilizaram para distribuir cédulas eleitorais e informações.
A tarefa da polícia, no entanto, pode esbarrar na reticência de membros dos Mossos d’Esquadra, a força catalã, que expressaram em comunicado sua relutância em acatar ordens de fechar postos de votação, temendo criar “perturbações da ordem pública”. Numa série de tuítes ontem, os Mossos reforçaram as preocupações com possíveis consequências da orientação.
“A aplicação das medidas decididas pelo Ministério Público deve estar em conformidade com os princípios básicos que regem qualquer ação policial. Isso implica a necessidade de ter especial cuidado com os princípios de oportunidade, proporcionalidade e congruência”, afirmou a força no Twitter. “O cumprimento das instruções não exclui a responsabilidade profissional de contemplar se aplicá-las pode levar a consequências indesejadas. Essas consequências se referem à segurança pública e ao risco previsível de mudanças na ordem pública que possam surgir.”
— Esse referendo é ilegal. É uma farsa, que vai de encontro à lei espanhola, à lei catalã, e às determinações do MP — afirmou ao GLOBO Ferran Brunet Cid, professor de Economia da Universidade Autônoma de Barcelona. — Não acredito que muitos policiais se mantenham reticentes. Até domingo perceberão que têm de seguir as ordens, e no dia 2 de outubro (uma dia após o referendo), a ordem espanhola imperará.
Além de prisões — que incluíram autoridades catalãs — e confisco de material eleitoral, o governo espanhol também aumentou seu combate ao referendo na internet. Páginas com informações sobre a consulta foram retiradas do ar e continuam a ser alvo de ações da Justiça espanhola ao reaparecerem, hospedadas em servidores estrangeiros. As medidas fizeram com que o governo catalão enviasse uma carta à Comissão Europeia, denunciando o que classificou como “uma contínua e ilegal repressão às instituições e à autonomia da Catalunha”.
— O que o governo central faz ao bloquear servidores e domínios é o que Turquia, China e Coreia do Norte fazem — afirmou o porta-voz do governo catalão, Jordi Turull. — Nenhuma democracia ocidental faz isso. A internet é o reino da liberdade.
Em entrevista à AP, o presidente regional da Catalunha, Carles Puigdemont, acusou a Comissão Europeia de “surdez voluntária” aos apelos dos independentistas da região e prometeu transformar o tema em uma questão europeia.
Para o deputado Ferran Civit i Martí, da coalizão pró-independência Juntos pelo Sim, as ações do governo espanhol são “bastante preocupantes”.
— É um caminho bastante perigoso para a Espanha, que se considera uma nação democrática — afirmou o deputado ao GLOBO. — Nunca vi tantos policiais nas ruas, e eles foram deslocados não para enfrentar grupos terroristas armados, mas para impedir pessoas aposentadas e famílias desarmadas de exercerem seu direito de votar.
E em mais um golpe contra a realização do referendo, a Justiça espanhola anunciou ontem que planeja investigar se houve violação da ordem pública nas manifestações dos dias 20 e 21. Segundo a juíza Carmen Lamela, o Tribunal Nacional Espanhol investigará se houve crime de insurreição no episódio em que cerca de 40 mil manifestantes se mantiveram diante de um prédio que abrigava policiais nacionais, e destruíram dois carros da Guarda Civil.
— É óbvio que, no fim, a democracia espanhola vencerá, mas terá que pagar um preço muito grande por não ter pagado um preço menor anos atrás — afirma Ferran Brunet, em referência às demandas de maior autonomia exigidas pelos catalães no passado.
Já Ferran Civit se diz confiante de que, independentemente das condições, o referendo será realizado e seu resultado, implementado:
— Aconteça o que acontecer, a Espanha já perdeu a Catalunha.

