WASHINGTON — Demorou quase uma semana após o furacão Maria atingir Porto Rico para o território americano tomar lugar central no noticiário do país. Isso aconteceu em parte por conta do presidente Donald Trump, que usou sua conta no Twitter para discutir com a Liga Nacional de Futebol Americano (NFL) e seus atletas, em vez de dar atenção oficial à ilha recém arrasada. Minha colega Samanta Schmidt, em reportagem de um dos cantos da ilha, disse: “Os porto-riquenhos têm dado voz à essas frustrações ao fazer pressão para que o governo acelere a ajuda a esses cidadãos americanos que há muito se sentem desconectados dos EUA, mas que talvez nunca tenham se sentido tão abandonados”.
Embora o governo Trump insista no fato de que está no topo da crise, basicamente toda a população continua sem eletricidade e aproximadamente 1,5 milhão não tem acesso à água potável. Outros milhares de cidadãos passam por dificuldades por conta de estruturas danificadas e falhas no sistema de comunicação da cidade.
Neste ano comemora-se o centenário da decisão de conferir cidadania americana aos habitantes de Porto Rico, uma ilha tomada da Espanha quando os EUA se expandia no Caribe. Mesmo depois de um século, para muitos americanos a ilha ainda parece uma relíquia distante em um império perdido. Uma pesquisa comprovou que apenas 54% sabem que pessoas nascidas em Porto Rico também são cidadãos americanos.
A ilha é um território não incorporado, o que significa que seus residentes têm o direito de mandar um representante para Washington, ainda que não tenham direito de voto nas eleições presidenciais. Como escreveu o jornalista Julio Ricardo Varela, “os EUA não gostam de se ver como o tipo de nação que tem colônias, mas se não tratam Porto Rico e seus cidadãos americanos da mesma forma que fazem com seus estados, então esse é o única maneira de vermos”.
Para completar, certa animosidade instaura-se há anos entre EUA e a ilha por conta de uma recessão que já dura uma década. A reclamação dos porto-riquenhos é de que a culpa vem de Washington, após uma política econômica de forte austeridade. Como resultado, houve aumento na imigração, o que diminui as chances de revitalização.
A condição submissa não deve mudar sob o governo Trump. A atitude do presidente c “é só o último exemplo de como os EUA vêm a ilha — boa o bastante para sua companhias fazerem dinheiro, mas não o suficiente para ter qualquer poder político próprio”, disse Varela.

