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Na velha Mossul, apocalipse e cheiro de morte

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MOSSUL, Iraque — Edifícios desmoronados, montanhas de escombros, ruas desertas com cadáveres espalhados: é essa a nova face apocalíptica da cidade velha de Mossul, antiga joia do Iraque, cujos bairros estão aos poucos sendo tomados dos combatentes jihadistas pelo exército iraquiano.

Pela terceira vez em poucos minutos, o tenente-coronel Mohamed al Tamim passa sem olhar pelo corpo de um jihadista, semi-enterrado sob os escombros do que alguns dias atrás, ainda era a fachada de um edifício no bairro de Al Faruq. Melhor afastar-se: o cadáver inchado, abandonado há dias sob uma temperatura de 40 graus, exala um forte cheiro de putrefação.

O desconhecido de barba volumosa morreu com o seu uniforme de combatente e com armas na mão. Esse parece o destino que podem esperar os últimos jihadistas do Estado Islâmico (EI), entrincheirados na cidade velha. Segundo um comandante dos serviços de elite de contra-terrorismo (CTS), ainda seriam algumas centenas deles espalhados pelo local.

Os combatentes dos EI que se apoderaram da cidade de Mossul — a segunda maior do país — após uma ofensiva relâmpago há três anos atrás, ocupam agora apenas um quilômetro quadrado na cidade velha, e estão rodeados por toda parte.

Nas ruas e becos continuam a ecoar os disparos de arma automáticas, foguetes e morteiros, que as forças iraquianas e os jihadistas trocam.

— Os combatentes do Estado Islâmico não se rendem — afirma o tenente-coronel Al Tamim — E, se não acabam mortos, em última instância, se matam ao se explodir.

Prova disso são as massas de metal retorcido, que estão nos cantos das ruas: é o que resta das motos bomba, muitas vezes jogadas contra seus inimigos pelos suicidas do grupo terrorista.

Um soldado que participou da reconquista do bairro Al Fariq destaca a importância dos bombardeios aéreos nestes becos inacessíveis para os blindados:

— Localizamos primeiro o inimigo. Depois pedimos apoio aéreo para eliminá-los. Em seguida, avançamos com cautela. Encontramos muitos cadáveres, e encurralamos os demais jihadistas vivos — diz.

A paisagem urbana está devastada, em meio a uma confusão indescritível. Fios elétricos no chão, carcaças esmagadas de carros, grades torcidas e telhados destruídos compõe a cena. Prédios inteiros explodiram e viraram apenas pilhas de pedras. As cores das lojas nas ruas desapareceram. O horizonte do bairro é apenas uma massa desforme, cinzenta e poeirenta.

O exército iraquiano assegura que toma todas as medidas necessárias para preservar as dezenas de milhares de civis — a metade deles de crianças — que tenham ficado presos nos bairros em mãos do EI.

— São a nossa prioridade, estamos lhes socorrendo — declarou o general Abdelwahab al Saadi, um dos comandantes do CTS.

Os militares não informam o número de vítimas civis nos combates ou bombardeios aéreos da coalizão internacional comandada por Washington, que apoia as operações em terra.

De acordo com testemunhos de civis que fugiram da cidade velha nos últimos dias, são muito raras as famílias que não perderam a um ou vários integrantes nos combates. Alguns foram vítimas do Estado Islâmico, que lhes ameaçava de morte, em caso de tentativa de fuga. Outros relatos falam de famílias inteiras refugiadas nos sótãos das casas ocupadas por jihadistas e que teriam sido mortos soterrados pelos bombardeios.

No domingo, nas ruas de Al Faruq, o cheiro nauseante dos corpos abandonados não pairava apenas em torno dos cadáveres dos combatentes do estado islâmico. Também exalava por entre os escombros das casas bombardeadas.

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