BOGOTÁ - Após meio século de conflito, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) deram na segunda-feira o primeiro passo na transição para a vida política, ao finalizar a entrega total das armas — uma medida fundamental para o acordo de paz, selado em novembro do ano passado. Na sexta-feira, o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, já havia antecipado a conclusão da terceira e última etapa do processo, que ratificada pela missão da ONU no país, formada por 450 observadores. Na manhã de terça-feira, Santos e o líder das Farc, Rodrigo Londoño, o Timochenko, oficializam o fim da guerrilha armada num ato em Mesetas, área rural do departamento de Meta.
Em comunicado, a ONU confirmou já ter armazenadas as 7.132 armas previstas. A guerrilha entregou, na semana passada, os 40% restantes de suas armas — os outros 60% haviam sido devolvidas nas duas semanas anteriores. A exceção são algumas pistolas e fuzis que servirão para fazer a segurança das 26 áreas de concentração, conhecidas como zonas de desarmamento, até 1º de agosto, data em que se iniciará oficialmente sua transição para uma formação política — a ONU determinou quantas armas poderão ser usadas. “Nesta data, a missão terá armazenado todo o armamento dos campos e extraído seus conteúdos das zonas de desarmamento, que passarão a ser Espaços Territoriais de Capacitação e Reincorporação”, explica a nota oficial.
Até agora, a missão já destruiu armas, munições e explosivos de 77 depósitos camuflados na selva.
— Conseguimos a permanência desta situação pós-conflito, e isso me parece notável. O sentido histórico é que se obtém a plena irreversibilidade (do conflito) — explicou ao jornal “El País” Jorge Restrepo, diretor do Centro de Recursos para a Análise de Conflitos (Cerac).
Em um vídeo nas redes sociais, o ministro da Defesa, Luis Carlos Villegas, destacou a importância do ato em Mesetas:
— A abdicação das armas é, talvez, a data mais importante para as últimas três gerações de colombianos. Em meus 60 anos, vou ver pela primeira vez as Farc desarmadas a partir de amanhã.
O líder das Farc, Rodrigo Londoño, o Timochenko, chegou durante a manhã de segunda-feira a Mesetas, no centro da Colômbia, onde a guerrilha oficializará o processo de desarmamento. No Twitter, Timochenko disse estar “muito emocionado” e postou uma foto em que aparecia vestido com uma blusa azul escrito Norway (Noruega), país que ao lado de Cuba foi um dos garantidores do pacto. Ele chegou à cidade em um helicóptero do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICR) e foi recebido por policiais e ex-guerrilheiros.
— Hoje, mais de 7 mil homens e mulheres desta guerrilha estão concentrados em 26 zonas ao longo de nosso território, entregando as armas que tinham consigo às Nações Unidas — explicou o presidente Santos na sexta-feira, em um discurso na sede da Unesco, em Paris.
Mesmo assim, a violência continua sendo um dos maiores problemas da Colômbia. No dia 17 passado, uma bomba explodiu no Centro Comercial Andino, matando três jovens e deixando uma dezena de feridos na capital. Oito pessoas do Movimento Revolucionário do Povo (MRP) — um grupo rebelde menor que, segundo as autoridades, teve vínculos com células da organização guerrilheira Exército de Libertação Nacional (ELN) — foram presas.
O ELN reuniu-se em fevereiro com o governo em uma mesa de diálogo em Quito, no Equador, para tentar negociar um cessar-fogo. Seus dirigentes, assim como as Farc, condenaram o atentado, mas sua estrutura caótica vem atrasando as negociações. Além disso, o grupo ainda não abandonou a prática do sequestro, ponto de maior tensão com a equipe negociadora.
O próprio presidente reconheceu que o país enfrenta ainda desafios, como o de garantir uma justiça de transição para as vítimas, desminar o território — a Colômbia, segundo ele, é o país com maior número de minas do mundo depois do Afeganistão —, e reincorporar os ex-guerrilheiros à vida civil, incluindo a participação na política, uma vez concluído o desarmamento.
— O número de atentados terroristas é bem inferior e tem diminuído — disse Restrepo, lembrando que “o radicalismo violento é uma exceção”.

