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Milhões de crianças chinesas crescem longe de pais que vão trabalhar nas grandes cidades

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PEQUIM — O Ano Novo chinês não é a data mais comemorada do país somente por se tratar da virada de mais um ano no calendário lunar. É talvez a única oportunidade que um exército de pelo menos nove milhões de crianças “deixadas para trás” (expressão usada pelos próprios chineses) tenha para estar com os pais que saíram das áreas rurais em busca de uma vida melhor nas cidades grandes. Este é o dado oficial divulgado em novembro passado. Mas o número pode chegar a 61 milhões, a depender do critério usado para o cálculo. Trata-se do equivalente às populações dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo juntas.

A explicação dada pelas autoridades à mídia local para a diferença entre as estatísticas tem dois motivos. O contingente dos “deixados para trás” caiu em função de políticas públicas. Além disso, mudou o critério para se fazer este cálculo. Hoje, são contabilizados os menores de até 16 anos, que têm pai e mãe trabalhando fora, ou que têm um dos pais trabalhando fora e o outro não tem a guarda do filho. Antes, a idade de corte era de 18 anos e a classificação valia para crianças que tinham um dos pais trabalhando fora da sua cidade.

— Estive com a minha filha duas vezes no ano passado, uma delas no Ano Novo. Sou de Henan. Não dá para ir toda hora. Fica caro. Mas acho que ela está bem com os avós. Estou levando presentes — diz L., faxineira em um salão de cabeleireiro no centro de Pequim, que preferiu não se identificar (muitos trabalhadores nesses casos não têm o hukou, documento que permite a residência na capital, e, por isso, vivem ilegalmente na cidade).

Xiao garante que ganha bem mais em Pequim do que na sua cidade natal de Henan, na província de Hebei, onde deixou a filha de 6 anos e o filho, de 4, com os avós. Ela concorda com a entrevista, mas não se deixa fotografar.

— Eu queria muito poder ficar com eles. Fico muito triste todas as vezes que os deixo lá. Eles são muito sensíveis. Não dizem que não querem que eu vá. Mas percebo, quando vou, que ficam tristes também. Meu plano é voltar para casa em dois ou três anos, depois de fazer um pé de meia. Meus pais também estão ficando velhos e não vão dar conta. Não tenho com quem deixá-los — lamenta, enquanto contabiliza todos os presentes que está levando para as crianças.

Os filhos de L. e Xiao fazem parte do grupo de mais de oito milhões de crianças deixadas para trás e criadas pelos avós. Outras 300 mil ficam com demais parentes e 360 mil vivem sozinhas, por conta própria. O problema das crianças que vivem separadas dos pais virou uma questão social importante na China e mostra um retrato das desigualdades no país. Mais de 90% dessas crianças moram nas regiões Oeste e Central do país, as mais pobres. São 4,63 milhões de crianças, ou 51,3% do grupo na região Central, e 3,52 milhões na região Oeste, 39,02% do total.

De acordo com o jornal estatal “Diário do Povo”, estudos indicam que sete em cada dez crianças deixadas para trás na China sofrem de traumas psicológicos, depressão e ansiedade. No ano passado o caso das quatro crianças que viviam sozinhas e tomaram veneno de rato causou uma grande comoção nacional. O mesmo periódico cita dados da ONG Children Charity Internacional estimando que um terço das crianças afetadas pode acabar se envolvendo em atividades criminosas.

O governo reconhece o tamanho do problema e tem tentado criar medidas para proteger estas crianças. Em algumas cidades, na província de Zheijang, por exemplo, já está previsto em lei que os pais precisam ver os filhos pelo menos uma vez por ano e falar com eles por telefone uma vez por mês.

O Ministério do Interior vai promover uma campanha que se chama “Tutela coletiva, acompanhando o crescimento (da criança)”, junto com os ministérios da Educação e da Segurança Pública, para promover as experiências bem-sucedidas em várias províncias, além de fiscalização, orientação e intervenção da guarda familiar, ajudando os pais que trabalham fora a cumprir as suas responsabilidades.

De acordo com o Unicef, mais de 100 milhões de crianças foram afetadas pela migração de trabalhadores na China em 2010, das quais 61 milhões são consideradas “deixadas para trás”. A entidade colaborou no projeto, em parceira com o Ministério da Educação, para a realização do documentário “Histórias por 180 lentes”, no âmbito do programa de Treinamento de Educação Móvel e Unidades de Recursos, que tem por objetivo melhorar a qualidade da educação para crianças nas áreas mais remotas do país. Dirigido por Zhang Yimou, o filme mostra o drama das famílias a partir das histórias de duas mil crianças em 72 escolas na província de Sichuan. A conclusão é que as escolas exercem um papel fundamental de apoio emocional e educativo na vida desses alunos que não contam com a presença dos pais.

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